Dreyer tinha 30 anos quando fez ‘‘Páginas do Livro de Sat㒒. O filme é profundamente influenciado por David W. Griffith de ‘‘Intolerância’’. Dreyer impressionou-se tanto com a obra do cineasta americano que também dirigiu um vasto afresco cinematográfico contando quatro histórias que denunciam a intolerância ao longo dos tempos.
Revistos hoje, os episódios de Cristo e da Revolução Francesa incomodam pela falsidade das barbas, perucas e da interpretação forçada. O episódio da perseguição bolchevista na Finlândia consegue ser anedótico demais e convincente de menos, mas possui belas imagens do campo coberto de neve. Finalmente, o episódio da inquisição na Espanha, sem atingir o plano de excelência de ‘‘Haxan, a Feitiçaria Através dos Tempos’’, de Benjamin Christensen (lançado na coleção de clássicos do fantástico da Continental), possui a marca do diretor e antecipa as obras-primas ‘‘A Paixão de Joana D’Arc’’ e ‘‘Dias de Ira’’.
‘‘Páginas do Livro de Sat㒒 é o mais antigo entre os filmes de Dreyer que serão lançados na segunda-feira pela Continental. Foi um filme que ele não escolheu fazer, mas foi forçado pela empresa produtora, da qual era funcionário. Mostra um diretor ainda hesitante. A maestria é absoluta em ‘‘A Paixão de Joana D’Arc’’. O último filme mudo de Dreyer é daqueles que os críticos, em geral, colocam no panteão dos dez maiores de todos os tempos. Não há votação em que ele não apareça bem situado entre os primeiros.
O filme narra o processo contra Joana D’Arc em Rouen. Apesar das intrigas do inquisidor, ela resiste. Torturada, abjura, é condenada à prisão perpétua. Ao retratar-se, é enviada para a fogueira. Joana D’Arc foi uma personagem que fascinou diretores tão diversos quanto Georges Melis, Victor Fleming, Roberto Rossellini e Robert Bresson. A versão de Dreyer é a definitiva, com uma interpretação antológica de Falconetti. O diretor filma quase que só em closes. Depois desse filme, você não esquecerá o rosto de Falconetti como expressão do sofrimento físico que conduz à angústia espiritual.
‘‘Dias de Ira’’ é outra obra de gênio. Uma feiticeira é acolhida na casa de um pastor. Denunciada por ele à inquisição, lança sua maldição: a mulher do pastor irá enganá-lo com um filho que ele teve do primeiro casamento. Na plena maturidade do seu estilo, Dreyer criou uma tragédia que resiste ao tempo.

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