Obra de Clarice é repleta de personagens femininas
As referências biográficas sobre Clarice Lispector são escassas, segundo a escritora Márcia Lígia Guidin, autora de Roteiro de leitura: A hora da estrela, de Clarice Lispector, com selo da Editora Ática.
Clarice era avessa a entrevistas e ao convívio intelectual, mantinha uma vida discreta e reclusa. Por isso, grande parte do que se sabe sobre ela e sobre seu processo de escrever baseia-se na reprodução de trechos presentes em sua obra, alguns francamente autobiográficos, outros nem tanto. Clarice negava sempre a relação vida-obra, mas, ao mesmo tempo, afirmou em várias ocasiões que narrar é narrar-se.
Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, antiga União Soviética, em 10 de dezembro de 1920. A família, pai, mãe e duas irmãs, desembarcou no Brasil, em Alagoas, quando Clarice tinha poucos meses. Pouco tempo depois, mudou-se para o Recife, onde a escritora passou toda a infância e parte da adolescência.
A infância nordestina com seus modelos sociais é relembrada em A hora da estrela por meio das personagens Macabéa e Olímpico. A morte prematura da mãe é uma das marcas bastante insistentes na ficção de Clarice Lispector. Grande parte de seus textos trata de uma busca da identidade feminina e nessa busca aparece com frequência a ausência dos laços entre mãe e filha.
Em A hora da estrela, Macabéa é órfã de pai e mãe e foi criada por uma tia muito madrasta má, com quem se mudou de Alagoas para o Rio de Janeiro, onde a tia morreu.
Em 1942, morando com os pais e as irmãs no Rio, Clarice começa escrever o primeiro romance, Perto do coração selvagem. No ano seguinte, já naturalizada brasileira, casa-se com o diplomata carioca Mauri Gurgel Valente, seu colega na faculdade de Direito.
A partir de 1944, após alguns meses no Pará, acompanha o marido em missão diplomática por vários países da Europa, que vivia o clima tenso do fim da Segunda Guerra Mundial. Na Itália, a escritora trabalhou como enfermeira voluntária num hospital para soldados brasileiros. Em 1952, vai para Washington (EUA), onde vive, já com os dois filhos, Pedro e Paulo, por oito anos. Em 1959, separa-se do marido e retorna definitivamente ao Brasil.
Ao primeiro romance seguiram-se O lustre (1946), A cidade sitiada (1949) e Laços de família (1960). Alguns contos (1952) aparece logo após a separação conjugal.
Com Laços de família, definem-se os perfis mais frequentes das personagens de Clarice. Nos contos predomina o modelo da dona-de-casa pequeno-burguesa em conflito com sua condição de mãe e de esposa, vivendo um cotidiano institucionalizado, abafado pelo peso da rotina. Tal modelo contrasta com as mulheres dos romances, que vivem em geral sozinhas, não têm relações amorosas estáveis nem filhos.
Excluída desses perfis, vinculados à cena urbana social, está a personagem Macabéa de A hora da estrela, cuja miséria e ignorância lhe vedam o acesso à cidade grande e à constituição familiar.
Os outros livros da autora são escritos simultaneamente a sua atividade jornalística no jornal Correio da Manhã e nas revistas Manchete e Fatos e Fotos. Em 1961 é publicado o romance A maçã no escuro. Em 1964, além de outros contos reunidos em A legião estrangeira, Clarice publica um de seus livros mais famosos, A paixão segundo G.H..
Em 1967, um acidente transforma a personalidade da escritora: ela tem mãos e pernas queimadas num incêncio, provocado pelo cigarro aceso enquanto dormia. A mão direita deformada e com cicatrizes, tolheu seus gestos e distorceu sua assinatura. Clarice inicia, nessa época, um processo de recolhimento doméstico.
Clarice Lispector morreu de câncer, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu aniversário. Foi enterrada com grande cobertura pela imprensa no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro.
A escritora ainda acompanhou a publicação de A hora da estrela, meses antes de morrer. A outra obra que escrevia na época, Um sopro de vida, foi organizada para publicação póstuma pela amiga e secretária Olga Borelli.
Se forem lidos simultaneamente, como foram concebidos, os dois livros funcionam como contraste e espelhamento um do outro. Enquanto Macabéa é uma moça pobre, semi-analfabeta e ignorante, Ângela é escritora rica e de algum sucesso.
Ao atravessar a rua, Macabéa é atropelada por um carro Mercedes-Benz. Batera com a cabeça na quina da calçada e sangrava. Devagar, encolhe-se como um feto, olhando o capim que crescia na sarjeta. Num fio de consciência, a pobre personagem pronuncia a frase: Quanto ao futuro. Nenhum transeunte entendeu, e Macabéa morre só e ignorada, esmagada pelo mundo urbano que não conquistou.





