Obra de Chaplin é resgatada pela Continental em DVD
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quarta-feira, 02 de junho de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 03 (AE) - Quando Charles Chaplin morreu, no Natal de 1977, Gláuber Rocha estava em Salvador, preparando A Idade da Terra. Por seu temperamento revolucionário, Gláuber não era muito de cultivar a tradição, mas fez uma exceção para o criador de Carlitos. Viu no fato um desafio simbólico para a civilização contemporânea. "Sua morte corresponde à morte do humanismo no século 20", escreveu. Talvez tenha sido um exagero, mas Chaplin foi mesmo grande, pela universalidade e humanismo de sua obra. Carlitos integra o patrimônio da humanidade. Parte de sua obra está sendo resgatada pela Continental em seu primeiro pacote em DVD.
Única distribuidora especializada em lançar clássicos de cinema em home vídeo no País, a Continental entra para o circuito do vídeo digital inovando. Além de recheados com biografias, filmografias, textos sobre os bastidores da época e opções de legendas, os lançamentos são abertos para o mundo todo
podendo ser vistos em qualquer DVD player. Evita-se, assim, que aquelas pessoas que compraram seus aparelhos na Europa, no Japão ou nos Estados Unidos tenham de fazer a decodificação dos mesmos. O pacote traz Cidadão Kane, de Orson Welles, A Dama Oculta, de Alfred Hitchcock, O Picolino, de Mark Sandrich, com a dupla clássica Fred Astaire-Ginger Rogers, Anjos de Cara Suja, de Michael Curtiz, e Tempos Modernos, de Chaplin, mas o filé é mesmo o Festival Mutual, volumes 1, 2 e 3, com os curtas do terceiro período da carreira de Chaplin. Para acompanhar o lançamento, a Continental promove, de amanhã (04) a domingo (06)
no Museu da Imagem e do Som, a mostra Festival Mutual, com 12 curtas que serão apresentados em DVD, com altíssima qualidade de som e imagem.
Decorridos 22 anos de sua morte, Chaplin já foi suficientemente desmistificado sem perder a aura de gênio do cinema. Um livro, em especial, Chaplin: Contraditório Vagabundo, de Joyce Milton, lançado no Brasil pela ática, mostra que, na realidade, ele estava mais para grande ditador do que para adorável vagabundo. Das mais de 500 páginas do livro sai o retrato implacável de um maníaco-depressivo que desprezava os amigos e colaboradores e destratava as mulheres. Joyce reuniu documentos para provar que tudo o que se dizia de mal de Chaplin era verdadeiro. Foi além, mostrando como ele foi manipulado pelos comunistas como um símbolo.
Chaplin nasceu em Londres, em 1889. Pertencia a uma humilde família de atores de variedades. Ainda garoto, conheceu o inferno depois que o pai morreu e a mãe ficou louca. Mas nunca perdeu o gosto pelo humor, adquirindo certo renome numa trupe de pantominas. Em 1910 viajou para os Estados Unidos, onde se estabeleceu, dois anos mais tarde. Em 1913, foi contratado por Mack Sennett para os seus filmes cômicos (e curtos).
Entre 1914 e 1915, Chaplin fez dezenas de curtas para a empresa Keystone, quando foi descobrindo e lapidando as características de Carlitos, que ainda não aparece no formato como ficou conhecido mais tarde. Na evolução de sua carreira, parte do estilo bufão e um tanto disparatado da fase Keystone para o humanismo da fase Essanay, ainda em 1915, e o sentimentalismo que marcou sua produção na Mutual, em 1916. É essa fase que os DVDs da Continental recuperam. Foi a época da consolidação da popularidade de Chaplin, seguindo-se a fase da First National (1918-1922), em que o dramático e o patético se apóiam num sistema cômico tão perfeito quanto inesgotável - é a fase definitiva da consagração do gênio, que teve novos desdobramentos. Em 1919, formou, com outros três grandes de Hollywood - Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D.W. Griffith -, a United Artists, na qual produziu sua grande trilogia de tragédias cômicas (Em Busca do Ouro, O Circo e Luzes da Cidade), prosseguindo na empresa até encerrar sua carreira com A Condessa de Hong Kong na Universal, nos anos 60.
Nada mais divertido do que assistir aos curtas da Mutual: O Imigrante, O Aventureiro, O Balneário, Rua da Paz, O Conde, O Vagabundo, Carlitos Bombeiro, Carlitos no Estúdio, À Uma da Madrugada, Casa de Penhores, Carlitos no Armazém e Carlitos, o Patinador. Formam um belo programa que fica ainda melhor se o espectador também puder ver, em DVD, o sublime Tempos Modernos, em que Carlitos é operário de uma fábrica, o que permite ao ator e diretor investir contra a mecanização e a desumanização da era industrial. Por suas posições consideradas de "esquerda", Chaplin esteve na mira dos macarthistas. Mas foram as paixões proibidas, e não a política, que o levaram para os relatórios do FBI. Neles, ele surge, na melhor das hipóteses, como um subversivo e, na pior, como um pedófilo que só se interessava por garotinhas com medo de que as mulheres maduras criticassem seu desempenho sexual.


