São Paulo, 02 (AE) - Sem trocadilhos: é preciso manter os olhos bem abertos e aproveitar tudo o que for possível do filme-testamento de Stanley Kubrick. Para começar, seria preciso fazer um trabalho prévio de faxina mental. Tudo ou quase tudo já foi dito, falado e comentado sobre essa adaptação de Kubrick da "Traumnovelle", do austríaco Arthur Schnitzler. Já se especulou como e por que esse foi um projeto perseguido obsessivamente por Kubrick, já se entrevistou ad nauseam o casal Cruise-Nicole, ouviu-se a viúva do cineasta, o roteirista escreveu seu livro, os biógrafos do cineasta morto em março deleitaram-se, etc. Deixemos tudo para lá e concentremo-nos filme, que é o que interessa.
"De Olhos bem Fechados" é como uma cidade: tem muitas entradas. Numa delas, pode-se buscar pelo essencial, que é o tema. De que fala? Cada crítico terá sua resposta. Quer dizer que vale tudo? Não. Kubrick construiu aquilo que se chama de "obra aberta". Rica, ambígua e por isso passível de vários níveis de interpretação. Isso não quer dizer que possa ser "lida" de qualquer jeito. Muito pelo contrário. Se Kubrick se impressionou tanto pela novela de Schnitzler (Breve Romance de Sonho, em português) é porque foi tocado por seu tema de base.
Schnitzler era um vienense da virada do século. Utilizar em seus textos as idéias da então nascente psicanálise era, para ele, tão natural quanto respirar. Ora, a ciência inventada por Freud não fala de outra coisa senão da estrutura do desejo humano, que provavelmente é, junto com a origem do universo, o mais insondável problema que a mente humana é capaz de pensar. De pensar, não de resolver, bem entendido. A esta altura do campeonato, supõe-se que a trama seja bem conhecida. Mas repare nas nuances da sua construção e funcionamento.
No início, Nicole despe-se. Em seguida, uma janela preta desce sobre a tela. Como num sonho interrompido, que se abre para a realidade. Mas será mesmo realidade o que se vê em seguida? Não é certo. Aquele baile, o casal flertando cada qual para o seu lado, a overdose da moça no andar de cima - tudo isso não respira um inequívoco clima onírico? Desejos ocultos - A sensação se reforça, logo em seguida, quando Cruise e Nicole, relaxados por um baseado, resolvem trocar intimidades e falar de desejos ocultos. Ela, em especial. Cruise é o mais "realista" nesse momento. O macho seguro de si, certo de que a mulher seria incapaz de uma traição. Cabe a ela tirar o tapete debaixo dos pés do marido e declarar, com todas a letras e entonações, que teria largado tudo - ele, a filha de 7 anos, a segurança material - por uma boa noitada com um homem que mal havia entrevisto nas férias passadas.
A partir daí, o médico William Harford, vivido por Cruise, "pira" e sai de casa motivado para uma eletrizante trip erótica. Entender isso como vontade de vingar-se, no plano da realidade, de um desejo expresso em fantasia por sua mulher, talvez seja a maneira mais infantil de compreender o filme. Mesmo porque, se "De Olhos bem Fechados" tem algum propósito explícito é o de misturar sistematicamente os mundos da realidade e da fantasia. Mas não de qualquer maneira.
Kubrick sabe que nada é mais arbitrário do que imaginar que tudo é sonho e portanto abolir qualquer critério de realidade objetiva. Seu propósito (como o de Schnitzler) é mais refinado. Quer, entre outras coisas, discutir o valor em si do real, como dado imediato, empírico, sólido nele mesmo. Para realizar esse trabalho de corrosão da certeza, mantém um pé na realidade, mesmo que precária, enquanto o outro se aventura pelo mundo da fantasia.
Quando Cruise sai pela noite é como se entrasse, progressivamente, no mundo da alucinação. Há o episódio da prostituta, o da filha do dono da casa de fantasias (!) de aluguel, a mulher que surge no interior da orgia ritual. Em cada um desses momentos, Cruise parece enamorar-se imediatamente, como acontece nos sonhos - porque não se trata, finalmente, de figuras femininas reais, mas de representações de desejo.
Por isso, a cena mais forte, a mais pungente e fundamental talvez seja aquela na morgue, em que Cruise contempla o corpo imóvel de sua suposta salvadora e sente que o desejo ainda pulsa dentro dele. Quando volta para casa, depois dessa noitada "real", ouve o relato da traição de Nicole, consumada "em sonho". Ouve o relato e sente-o como um bem concreto soco na boca do estômago. Onde o sonho, onde a realidade? É nesse intervalo precário que toda a história se passa.
Kubrick é menos radical que Schnitzler. Põe, no filme, alguns pontos de ancoragem que não existem na novela. É o caso da volta do personagem de Sidney Pollack, no final, para explicar a Cruise o que de fato aconteceu durante a noitada. É o caso, também, da frase final de Nicole, mais pedagógica que grosseira, afinal de contas. Como se, nas sequências de fecho, Kubrick tentasse ainda segurar alguma sobra de realidade que perdera ao longo do percurso. Em vão.
"Um sonho é mais que um sonho", diz Cruise, no que poderia ser uma paráfrase do axioma central de Freud: "Depois de sua interpretação, todo sonho se revela a realização de um desejo". Como se fosse a via contrária, a contramão, a que contorna a realidade empírica, aquela que conduzisse à realidade do desejo humano. Poucos filmes (poucas obras, para ser mais genérico) chegaram tão perto desse destino impossível.

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