Objetividade tira força de "Meia-Noite no Jardim do bem e do mal"
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de julho de 1998
Cecília Sayad Agência Folha 
Arquivo FolhaCena de Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, filme baseado no livro de
John BerendtMeia-Noite no Jardim do Bem e do Mal (editora Objetiva) é o resultado da fascinação que Savannah (Geórgia, EUA) exerceu sobre o jornalista John Berendt, que lá viveu por vários anos.
Fascinação tal que ele achou que o formato reportagem não era suficiente para comportar tudo o que teria a dizer sobre o excêntrico local e seus habitantes. Decidiu, então, transformar seu relato num romance. Para tanto, como escreve em nota no final da edição brasileira, usou pseudônimos para resguardar a privacidade de alguns personagens e tomou certas liberdades narrativas.
O romance de Berendt só se concentra na trama principal - o assassinato do jovem Danny Hansford pelo antiquário Jim Williams e o julgamento deste último - em sua segunda parte.
Antes de entrar na trama desse crime que envolve violência e homossexualismo, como se lê na orelha do livro, o romance se compõe de uma série de crônicas sobre os diversos personagens que habitam Savannah. Uma drag queen que toma hormônios para perder a masculinidade, um homem que passeia à coleira de um cachorro que já morreu, um inventor detentor de um veneno que ameaça colocar no reservatório de água da cidade. Mas o preferido de Berendt parece ser mesmo Jim Williams, um novo rico sobre o qual são contadas muitas lendas e que desperta admiração e inveja na cidade por sua propriedade, a Casa Mercer (que pertencera ao bisavô do compositor Johnny Mercer), e suas festas de Natal, principal evento social de Savannah.
Williams vê no narrador um confidente, contando a ele inclusive detalhes do crime que comete em legítima defesa. E é o antiquário o representante do que Savannah tem de mágico - seu isolamento, mantendo tradições incompreensíveis aos forasteiros, como o recurso a feitiçarias - e de decadente - o desmascaramento do personagem está, no romance, próximo da descrição das dificuldades financeiras que a cidade enfrenta.
Berendt constrói um mito com olhar crítico, mas o que seria condenável do ponto de vista moral - como macumba para prejudicar os inimigos - só serve para tornar ainda mais fascinante, a seu ver, essa cidade tão peculiar. No entanto, apesar da curiosidade que Savannah exerce sobre Berendt, o escritor, talvez por ser jornalista e manter certo distanciamento com relação ao que relata, não parece se envolver com os acontecimentos a ponto de poder dar a seu romance a atmosfera que eles propiciariam. A história de um crime que envolve violência e paixão, é então narrada como uma mera sucessão de fatos - como se os julgamentos fossem acompanhados por meio de notícias publicadas num jornal.
Não que falte talento narrativo a Berendt - pelo contrário, ele consegue o mérito de descrever três julgamentos, sendo que eles diferem entre si apenas em pequenos detalhes, sem deixar que percam o interesse. Mas o romance fica devendo no quesito magia, provavelmente por excesso de objetividade. O distanciamento do autor faz com que a estranheza dos personagens e os eventos ligados ao crime cheguem ao leitor sem a aura de mistério que sugerem.
A edição brasileira, com pérolas como uma moto barulhentamente parada e descuidos como o homem a arrastou-a, só contribui para esse distanciamento, ao chamar a atenção e desviar o olhar de quem lê - como um ruído que interrompe a fluência da história.


