Oásis de letras
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de outubro de 1998
Nelson Sato 
Por enquanto, ela engatinha nos canais pagos e dirigidos para assinantes, bem longe do zoológico povoado por roedores e reis da floresta em que se transformou a TV aberta. Mas aos poucos, a literatura vai se fazendo notar pelos telespectadores, que ganham a partir de hoje um novo programa voltado para o universo das letras.
Vereda Literária estréia em rede nacional pela TV Cultura, depois de habitar durante dois anos e meio a emissora afiliada de Belo Horizonte. O programa, que será exibido aos sábados às 11h30, traz na edição inaugural uma entrevista com o crítico Fábio Lucas, atual presidente da União Brasileira de Escritores.
A proposta do programa é fornecer um perfil do convidado, que fala de sua obra e é entrevistado por outras pessoas - explica o produtor Abel Silva. Já gravadas, as duas próximas edições do programa vão trazer o ensaíasta Gilberto de Mendonça Telles e o escritor Domício Proença Filho. Daí em diante, o programa será feito ao vivo.
Segundo Abel, o programa se propõe a informar os novos autores a respeito do mercado editorial. Procuramos mostrar como funcionam as editoras, quais as diferenças de linha de publicação entre uma e outra e que outros meios existem para eles apresentarem seus textos que não sejam apenas os concursos. Enfim, tentamos orientá-los no universo literário - diz.
Com meia hora de duração, Vereda se junta a outras iniciativas bem-sucedidas do gênero como Espaço Aberto com Pedro Bial (Globo News), Literatura (Senac) e Tirando de Letra (Futura) - todas ostentando uma longevidade espantosa, em vista do reduzido apelo popular que poetas, romancistas, ensaístas, editores e demais personagens desse círculo costumam exercer sobre o público.
E é preciso lembrar dos dados estatísticos, frequentemente desanimadores a respeito do hábito de leitura entre os brasileiros. Sabendo disso, a equipe de produção do Tirando de Letra investiu no estilo da MTV para capturar a atenção da garotada de 10 a 19 anos que constitui seu arredio público-alvo.
Fizemos uma pesquisa para escolher o nome do programa, e constatamos que havia uma rejeição muito grande a palavras como leitura e livros - conta a coordenadora do programa Maninha Pereira. Para os jovens, a linguagem tem que ser motivacional - diz ela. Por isso adotamos uma estética clipada, colorida, picotada e com bastante utilização de vinhetas, charges e histórias em quadrinhos.
Há um ano no ar, como o próprio canal Futura, Tirando de Letra também é produzido em Belo Horizonte. Em geral, cada edição traz um tema à tona para ser abordado em depoimentos de participantes e nas indicações de livros. Entre os quadros fixos, um traz atores interpretando textos de poetas consagrados e novatos.
Uma outra seção trata de romances que foram adaptados para o cinema ou teatro, reunindo entrevistas com diretores, roteiristas, figurinistas etc. Graças ao formato de revista, lembra a Maninha, o programa é flexível o suficiente para abrigar convidados inesperados. Sempre colocamos artistas e ídolos dos jovens para falar de livros. Basta alguma personalidade famosa desembarcar na cidade, para nossa equipe ir recepcioná-la no aeroporto.
Na lista de nomes que já deram seu recado no programa constam o escritor-roqueiro Toni Bellotto, o quadrinhista norte-americano Will Eisner, a atriz Cristiane Torloni, a romancista Lygia Fagundes Telles e os jornalistas Gilberto Dimenstein e Zuenir Ventura.
Também na raia, o programa Literatura tornou-se um dos mais bem assistidos da TV Senac desde sua estréia no começo do ano. Apresentado pelo jornalista Ricardo Soares, foi idealizado com a missão de estimular o gosto pela leitura entre os trabalhadores, público prioritário da emissora. Com uma hora de duração, traz três convidados para conversar com Ricardo, além de incluir dramatizações de textos por um casal de atores e dicas de lançamentos e clássicos.
O perfil da audiência é levado em conta no tratamento do assunto, fazendo com que os escritores falem não só de sua obra mas abordem temas como o dia-a-dia da profissão, a vocação e o mercado de trabalho. Já passaram pelo programa autores como Márcio Souza, Ignácio de Loyola de Brandão, Dias Gomes, Marcos Rey, Jorge Mautner e Carlos Heitor Conny.
O projeto começou timidamente para testar a reação da audiência - nas palavras do coordenador de programação Robinsom Moreira - mas logo foi aprovado. A boa receptividade provocou mudanças na produção. O programa, que era quinzenal e gravado, será semanal e ao vivo a partir de 99. Várias edições estão gravadas e prontas para ser apresentadas.
Entre os próximos entrevistados constam o crítico musical José Ramos Tinhorão, a poeta Renata Pallotini, o historiador Jacob Gorender, o editor Pedro Paulo Senna Madureira e o escritor londrinense Domingos Pellegrini (previsto para ir ao ar no dia 25 de novembro).
Tão respeitável quanto este, um numeroso elenco de escritores já bateu estimulantes papos com Pedro Bial durante a meia hora em que ele está no comando do Espaço Aberto na Globo News. Alternando a apresentação do programa com outros colegas de emissora, num esquema de rodízio em que cada um lhe imprime um formato pessoal, Bial optou por dedicar seu dia à literatura. O esquema é simples, na base de entrevista tête-à-tête no estúdio, intercalada com a leitura de trechos do livro do convidado.
Jorge Amado, Caetano Veloso e Paulo Coelho são alguns dos nomes que passaram pelo programa em seus dois anos de existência. Fomos pioneiros. Quando o Bial propôs o projeto à emissora, não havia nenhum programa na televisão brasileira dedicado exclusivamente à literatura - revela Marcel Souto Maior, que dirigiu o programa durante um ano e meio.
Um das entrevistas mais marcantes foi com o escritor João Ubaldo Ribeiro numa sala da editora Record, na qual confessou os problemas que enfrentava com o alcoolismo. Na ocasião, quando entrevistado e entrevistador mal conseguiam disfarçar a emoção, as luzes subitamente se apagaram. Providencial acaso. Bial teve que encerrar a entrevista.
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