O Xangô de Baker Street deve chegar às telas em 99
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terça-feira, 10 de novembro de 1998
Beatriz Coelho Silva Agência Estado 
O filme O Xangô de Baker Street, do cineasta Miguel Faria, é uma superprodução tanto pelo orçamento de US$ 8,5 milhões quanto pelo tempo de filmagem recorde, 15 semanas. A opinião é de Joaquim de Almeida, o ator português que está no Brasil para viver, na película, o detetive inglês Sherlock Holmes. O filme começou a ser rodado na cidade do Porto, em Portugal, continuou em Petrópolis, região serrana do Rio, foi para o Teatro Municipal de Niterói e depois no Jardim Botânico do Rio.
O Xangô de Baker Street é uma adaptação do romance de mesmo nome escrito por Jô Soares, cuja história se passa no penúltimo ano do 2º Império. Uma série de crimes ocorre no Rio e D. Pedro II (vivido por Cláudio Marzo) chama o detetive inglês para resolvê-los. Aqui, Sherlock se apaixona pela mulata Ana Candelária. Ao mesmo tempo, a atriz Sarah Bernhard (na pele da portuguesa Maria de Medeiros) faz temporada no Brasil e conhece tanto Sherlock quanto o Marquês de Salles (Marcello Antony), um dândi do século passado que se esmera em exibir seu requinte afrancesado.
A grande dificuldade da produção é exatamente a época em que a história se passa, a penúltima década do século passado, quando o Rio se orgulhava de ser uma Paris tropical, tanto em sua arquitetura neoclássica quanto nos costumes. Tivemos preocupação em reconstituir essa época, da mesma forma que o livro do Jô Soares e isso encarece o filme, conta o diretor Miguel Faria. O que se preservou no Rio, e no Brasil de um modo geral, foi a arquitetura colonial, do século 18, onde predominam as paredes brancas e as formas menos rebuscadas.
Para o diretor de arte, Marcos Flaksman, a essa dificuldade se soma outra: há boa quantidade de fotos do Rio do início do século 20, rica iconografia do século 18 (Debret e Rugendas, por exemplo), mas a arquitetura e a forma urbana do Rio do fim do 2º Império existe muito mais em ilustrações de revista ou no imaginário brasileiro, por causa da obra de escritores como Machado de Assis ou Lima Barreto. Então, temos de refazer o Rio não só como era, mas também parecido com o que as pessoas têm na imaginação, explica Flaksman.
A figurinista Marília Carneiro tem uma outra dificuldade. Temos de respeitar o figurino da época, com uma imagem que agrade ao público de 1998, conta ela. Então, as divas como Sara Bernhard não podem ser mulheres gordas, cheias de celulite, como elas eram naquele tempo e as roupas têm de seguir todos os detalhes da época. Para isso, Marília não só pesquisou em revistas e livros da época, recorreu também à loja londrina Angels, especializada no aluguel de roupa para cinema e teatro. É de lá que vêm os figurinos de Hollywood e da Broadway.
A atriz Maria de Medeiros conta que teve pouco tempo para compor a atriz Sarah Bernhard. Ela procurou esquecer o mito e viver a mulher viva e de raciocínio rápido que está nas biografias. Aos 33 anos, Maria conta que não perdia os filmes brasileiros do Cinema Novo e dos anos 70 em seus tempos de estudante de arte dramática em Paris. Estar numa produção brasileira é uma emoção à parte, salienta.
Joaquim de Almeida faz um Sherlock mais despojado. Ele não poderia ser o mesmo inglês circunspecto depois de apaixonar-se por Ana Candelária. A presença de Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida no elenco de O Xangô de Baker Street deve-se, em grande parte a um acordo do Brasil com Portugal que permite co-produções entre os dois países. E, apesar de o governo português ter contribuído com US$ 150 mil dos US$ 8,5 milhões do orçamento do filme, o produtor Bruno Stroppiana acha que vale a pena. Só pela participação desses atores se vê que essa cooperação vai além do dinheiro e se revela em oportunidades que se abrem para o filme.
O filme está sendo produzido em sociedade com a Sonny Columbia e tem patrocínio, por intermédio das leis do Audiovisual e Rouanet, da Volkswagen, da IBM e da Telebrás, entre outros. Mas o custo total não é coberto por esses patrocínios, explica Stroppiana. Numa produção dessa ordem, até o estudo de sua viabilidade já implica gastos. Mesmo assim, O Xangô de Baker Street ficará pronto em tempo recorde. Com lançamento previsto para o segundo semestre de 1999, entre a idéia do filme e sua estréia, terão passado três anos.


