O xamã das artes e a antecipação do futuro
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2003
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
Em 1974, 27 anos antes das torres gêmeas do World Trade Center desabarem sob a ação de um atentado terrorista, o artista alemão Joseph Boeuys realizou, à sombra dos edifícios, uma outra ação chamada ''Amo a América e a América me ama''. O título hoje - sob o poder nefasto do presidente George Bush - pode suscitar aversão natural ao ufanismo norte-americano, mas na época era uma homenagem crítica do artista, tendo como paradigma a vida de concreto da Big Apple. Beuys fez também interferências nos cartões-postais da cidade e um dos resultados foi uma imagem inusitada das torres gêmeas, que ele batizou de ''Cosme e Damião''. Numa espécie de antecipação do futuro, Cosme (que na grafia inglesa aparece como Cosmos) e Damião é uma alusão aos irmãos gêmeos árabes que, transformados em santos na Antiguidade, eram reconhecidos como dois protetores ''sem dinheiro'', porque não cobravam nada por seus trabalhos de cura. Vale ressaltar que a festa dos santos é celebrada em setembro, mês em que o World Trade Center desabou.
Outra sacada de Beuys foi ter escolhido a gordura - isso mesmo - como material de construção das suas torres. Ele não quis fazer as maquetes com aço ou concreto, materiais rígidos que nunca sofrem transformações, preferiu a maleabilidade da gordura que derrete sob o efeito do calor. Por uma triste coincidência, o aço das torres também acabou ''derretendo'' quando sofreu o impacto dos jatos que derrubaram o símbolo do poder americano.
Revisitando a obra de Beuys, depois da tragédia e às portas de um conflito mundial que põe em xeque valores humanos e éticos das nações envolvidas, é quase impossível não resgatar o conceito que coloca o artista como ''antena da raça'', podendo antever ou moldar os rumos da história.
Joseph Beuys, um xamã das artes, transformou as torres gêmeas em duas torres de gordura querendo com isso recriar a megalópole com uma dose a mais de criatividade, em vez de se prender a um princípio rígido de urbanidade, representado por materiais duros como o aço. Sua concepção era a de transformar o ''frio sistema terminal do capitalismo desumano'' em ''capital da criatividade do calor social''. Uma ação que Bush, com atitudes de ferro, jamais compreenderia.
Hoje, quando estão sendo selecionados projetos de edifícios a serem construídos no lugar das torres desaparecidas, o cartão-postal de Joseph Beuys oferece a idéia de uma inusitada construção de gordura, flexível e sempre pronta a se transformar. À luz dos acontecimentos, a obra se reveste de um significado extraordinário. Joseph Beuys morreu há 16 anos, para ele ''o verdadeiro capital da humanidade era a criatividade''.


