MEMÓRIA
O vôo sem volta do ‘‘Asa Branca’’
Arquivo FolhaSobre sua música, Luiz Gonzaga costumava dizer ‘‘Quero que o Brasil tenha consciência do sertão’’Hoje faz dez anos que morreu Luiz Gonzaga, o ‘‘rei’’ do baião, o velho ‘‘Lua’’, o Gonzagão, enfim, o homem que soube como ninguém tocar e cantar as lamúrias do povo nordestino
Cleide Cavalcante
Agência Estado.
Há dez anos, no dia 2 de agosto de 1989, uma das vozes mais importantes da MPB se calava. Para lembrar a data, algumas localidades nordestinas prepararam homenagens a Luiz Gonzaga, como a exposição permanente no Museu de Caruaru do acervo pessoal do sanfoneiro e compositor. Ninguém cantou tão bem o Nordeste quanto Luiz Gonzaga do Nascimento. ‘‘Asa Branca’’, uma de suas músicas mais executadas, tornou-se um verdadeiro hino.
O ‘‘Velho Lua’’, como ficou conhecido, nasceu em 12 de dezembro de 1912, na Fazenda da Caiçara, em Exu, cidade do sertão pernambucano. Filho do sanfoneiro Januário dos Santos e de Ana Batista de Jesus, a Santana, foi o segundo de oito filhos do casal. Seu nome foi uma escolha do padre Medeiros. O religioso preferiu como sobrenome Nascimento, em lugar de Santos, já que o garoto havia nascido no mês do nascimento de Cristo. E parece que deu sorte.
Gonzagão desde cedo demonstrou talento para a música. Tanto que aos 12 anos ganhava a primeira sanfona. Aprendeu a tocar sozinho, assim como aprendeu a ler e escrever. O instrumento foi comprado pelo coronel Manoel Aires de Alencar, para quem trabalhava de vez em quando. Pagaria quando tivesse dinheiro. Se pagou? Cada centavo. Com a sanfona na mão, não lhe faltaram convites para tocar ‘‘samba’’, como era chamado o forró naquele tempo.
A paixão por uma certa Nazarena resultou em sua saída de Exu. O pai da moça era um coronel e não aprovava a relação. Luiz Gonzaga foi tirar satisfação, e o coronel avisou à mãe dele que só não o matava porque respeitava a família do jovem músico. Resultado: mesmo com 17 anos, ele não escapou de um boa surra dos pais. Indignado, decidiu, literalmente, colocar os pés na estrada. Caminhou por 70 quilômetros até Crato, onde vendeu a sanfona e comprou uma passagem de trem para Fortaleza. Gonzagão só voltaria à sua cidade natal em 1946, já consagrado como o ‘‘Rei do Baião’’.
Em Fortaleza, Gonzagão se alistou no Exército. Esperto, mentiu a idade. Para vestir a farda, disse que tinha 21 anos. Em 1939 deu baixa no Exército e foi morar no Rio de Janeiro. A carreira de músico, propriamente dita, começou na zona do meretrício carioca. Acabou fazendo parceria com Xavier Pinheiro, que mais tarde foi o pai adotivo de Gonzaguinha - criado por Gonzagão.
Gonzagão costumava afirmar que sua carreira havia iniciado em 1941. Este, porém, foi o ano em que ele gravou o primeiro LP, pela RCA. O que só aconteceu quando ele participou do programa de calouros de Ari Barroso. Pouco tempo depois, era consagrado pelas rádios como o ‘‘Rei do Baião’’, título que o acompanhou por toda a carreira, criado por Paulo Gracindo, então radialista na Rádio Nacional.
No começo, ele só tocava. Não gostava da própria voz, mas mesmo assim arriscava uma cantoria de vez em quando. Para sua surpresa, a gravadora começou a receber cartas de fãs. A primeira música gravada foi ‘‘Dança Mariquinha’’. No entanto, ‘‘A Mulata Preta’’, de 1943, é que estourou nas paradas.
O ‘‘Velho Lua’’ conheceu um de seus maiores parceiros, Humberto Teixeira, em 1945. Com ele, compôs canções inesquecíveis, como ‘‘Asa Branca’’, ‘‘Assum Preto’’, ‘‘Juazeiro’’, ‘‘No Meu Pé de Serra’’, ‘‘Estrada do Canind钒 e ‘‘Respeita Januário’’. Luiz Gonzaga sempre falava que buscava inspiração no folclore.
E não se preocupava com a modéstia quando declarava que havia inventado o baião (que já existia no século passado), o forró e as marchinhas juninas. Entretanto, Luiz Gonzaga era mesmo um gênio da música, e isso era incontestável.Em 1948, Gonzagão foi procurado, no auditório da Rádio Nacional, por uma fã indignada por ele não responder às suas cartas. Foi amor à primeira vista. Casaram-se no mesmo ano.
Com a carreira apinhada de sucessos, o sanfoneiro mais famoso do Brasil, aos 73 anos, quis experimentar a política. Muita gente não entendeu sua iniciativa. Mas ele dizia: ‘‘Quero que o Brasil tenha consciência do sertão’’. Mas isso foi o que ele fez, e muito bem, durante toda a vida. Suas músicas narravam uma realidade, para muitos, desconhecida. Numa época em que não ainda havia televisão, o Brasil já cantava as lamúrias do povo nordestino.

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