O voo do gafanhoto
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de outubro de 2010
Márcio Maio<br> TV Press 
Carmo Dalla Vecchia coleciona papéis de conquistador. Mas foi justamente na pele do maltratado Silvério da série ''A Cura'' que o ator parece ter vivido seu grande êxtase na tevê. Tanto que ele não economiza palavras ao descrever o quanto se surpreendeu com a imersão que realizou no universo do minerador mal-encarado. A ponto de sofrer fisicamente ao se aproximar a data de se ver no ar. ''Na véspera da estreia, molhei oito camisas tentando dormir, mas não conseguia. Cheguei a medir a temperatura, mas estava em 37º. Era tudo psicológico'', conta o ator, que emagreceu 15 quilos para as gravações. A experiência mexeu com Carmo, mas esse ''frisson'' já tem data certa para acabar.
Depois que o último episódio de ''A Cura'' for ao ar, em 12 de outubro, o gaúcho sai de férias. Na volta, já começa a se dedicar a um novo trabalho: protagonizar, ao lado de Paola Oliveira, o próximo folhetim das 18 horas da Globo, com assinatura de Duca Rachid e Thelma Guedes.
Você se despiu da vaidade para interpretar o Silvério de ''A Cura''. O que isso trouxe para sua composição?
Uma liberdade incrível, a possibilidade de fazer um personagem sem aquela preocupação de fazer as pessoas quererem levar você para a cama. E, com isso, se concentrar exatamente na história que deve ser contada e no tipo que você tem de construir. A televisão lida com a imagem e você tem de ter um apego a esse detalhe, porque as pessoas gostam daquilo que estão vendo. Com o Silvério, não, ele conta o lado mais repugnante da história. As pessoas não me reconheciam nas ruas. Aconteceu até de eu sair em São Paulo e ouvir ''ih, olha aquele ator da Globo!'' e um outro falar, ao lado, ''que nada, é só um mendigo''.
Que referências você buscou para construir o Silvério?
Tem um livro do Sérgio Buarque de Holanda chamado ''Caminhos e Fronteiras'' que li e foi muito importante nesse trabalho. Ele fala sobre o emparedamento, as unhas grandes, o sacrifício, a aparência depauperada, o descuido, até a doença que ele tinha e que matava muito fácil na época. E olha só que curioso: há pouco tempo, uma médica me deu o nome da doença do Silvério, aquela que onde alguém toca, vira uma ferida. Chama-se epidermólise bolhosa.
Você falou do aspecto descuidado, do quanto foi bom se despir de qualquer vaidade, mas assim que as gravações acabaram, voltou para a cara de galã de antes. Por quê?
Adorei passar pela experiência, mas não acho que meus últimos papéis tenham sido de galãs. Aliás, eles até tinham um apelo de conquistador, de uma boa aparência, mas sempre com um ''pé quebrado''. Em ''Engraçadinha'', era um filho apaixonado pela mãe; em ''Cobras & Lagartos'', era um desmemoriado; em ''A Favorita'', o Zé Bob era meio justiceiro, repórter de jeans e camiseta, o charme dele era o lado largado. E, em ''Cama de Gato'', o cara descobria, no primeiro capítulo, que ia morrer. Mas eu não tenho essa vaidade de roupa, de maquiagem. Nunca vão me ver brigando por uma peça de indumentária nova. Minha função não é essa. Eu me entrego demais aos personagens. Às vezes, até sofro por isso.
Como?
Por exemplo, a questão de emagrecer tanto para fazer ''A Cura'' e trabalhar sentimentos tão fortes quanto a cobiça, a inveja e o ódio que tem daquele menino, o Ezequiel (vivido pelo ator Dyjhan Henrique), que é capaz de curar qualquer um, menos o Silvério. Comecei a sonhar que eu estava assassinando pessoas. E eu, no próprio sonho, questionava o que estava acontecendo e por que fazia aquilo. Saía das gravações com dores nas costas. A postura do Silvério era completamente diferente. Sempre o imaginei meio que em forma de gafanhoto, por isso emagreci 15 quilos.
Hoje, depois de terminar as gravações e ver quase todos os episódios no ar, que balanço você faz de ''A Cura''?
É uma série muito ousada por se propor - e isso eu acho genial e inusitado - a ser um seriado semanal com uma história que não se encerra em cada capítulo. Para entender o texto, é preciso acompanhar os nove episódios. Não é como ''Os Normais'' ou ''A Grande Família''. Acho isso demais porque as pessoas estão começando a se ligar agora nesse mercado aqui no Brasil.
Você chegou a se inspirar em algum seriado importado?
Sim. ''Twin Peaks'' me ajudou muito. Outro seriado que me inspirou foi ''O Vidente''. Não pela história, mas pela linguagem. E também ''A Paranormal'', com a Patricia Arquette. ''A Cura'' já é um dos trabalhos inesquecíveis da minha carreira.


