O vôo da alma de Max Cavalera
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de abril de 1998
Luiz Claudio Oliveira 
DivulgaçãoMax Cavalera e banda: a espiritualidade determinando a realidade. Vivi coisas muito fortes e também muito espirituaisEm poucos meses, no ano passado, a vida de Max Cavalera, ex-vocalista do grupo de rock de maior sucesso que o Brasil já teve, sofreu uma grande virada. Neste período ele saiu do Sepultura, brigado com os outros integrantes, inclusive com seu irmão Igor. Mas este não foi o pior golpe. O enteado, Dana Wells, que ele considerava seu melhor amigo, foi assassinado.
Poderia ser um ano infrutífero, puramente reflexivo, senão depressivo para qualquer ser humano, mas não para Max. O dono de uma das gargantas mais ásperas do rock mundial não ficou se lamentando. Foi à luta, participou de festivais no Brasil e no exterior, gravou e cantou com muita gente boa. Como se não bastasse, ainda sobrou tempo para montar uma nova banda e lançar um disco, Soulfly (leia crítica nesta página).
Direto de Phoenix, no Arizona, Estados Unidos, onde vive com a sua companheira Gloria, Max Cavalera falou por telefone com a Folha2 e contou um pouco deste vôo de sua alma que aterrissou em Soulfly.
Este é um disco de despedidas, já que você o dedica ao Dana e ele veio depois da separação do Sepultura?
Max Cavalera - É resultado de um processo natural de botar pra fora o que você está sentindo no momento. As minhas músicas lidam com a realidade. A espiritualidade determina a realidade. O que eu faço é o retrato da realidade que vivo. Vivi coisas muito fortes e também muito espirituais.
Ainda existe muita mágoa do Sepultura?
Max - Foi um rompimento pesado, mas eu não tenho raiva de ninguém. Adoro meu irmão e tenho certeza que a gente vai se entender de novo e quem sabe até tocar junto. Com relação aos outros da banda, depende deles. Eu estou aberto.
Aquela história de atentados que você sofreu e a morte do Dana já foram resolvidos?
Max - Isso faz uns oito meses, na época em que Dana foi morto. Contratamos detive e descobrimos que não foi acidente a morte dele, foi assassinato. Nesta época quebraram vidros da minha casa, foi assustador. Ninguém sabe o que aconteceu. Até agora continua sem explicação. Vou manter a investigação, principalmente sobre o assassinato. É difícil principalmente para a Gloria. A mãe ao perder um filho assassinado deve pelo menos ter a paz de conseguir justiça. É a lei da Bíblia. Para ela é difícil saber que a pessoa que matou o Dana ainda está livre.
Você é religioso?
Max - Acredito em Deus acima de tudo. Gosto de ir à umbanda, de me benzer. Mas há um só Deus. Cada pessoa tem que achá-lo.
A música Soulfly é a mais triste que você já compôs na sua vida?
Max - Acho que sim. Ela teve o envolvimento de várias pessoas e estava presente a lembrança de pessoas que já foram. A Nação Zumbi lembrando o Chico, eu lembrando o Dana e outras pessoas queridas que partiram. Foi um momento especial. Ela foi feita na hora. Foi mágica. Saí do estúdio com todo mundo e mostrei a idéia para eles. Toquei cítara. Tinha feito um riff na cítara e a galera se motivou, sentiu a música. Começamos a tocar ali fora, depois entramos no estúdio e gravamos direto ao vivo. A única coisa extra que entrou depois foi um overdub de guitarra que o Lucio Maia colocou.
Falando no Lucio Maia, que é guitarrista também do Nação Zumbi, por que ele assina no disco como Jackson Bandeira?
Max - Não sei. Foi uma viagem dele. Ele que pediu, mas tem que falar com ele mesmo para saber a explicação.
A batida brasileira vai continuar evidente na música ou você vai procurar outros estilos?
Max - Encontrei uma coisa que eu gosto e sinto falta no heavy que é a diversidade. Sempre gostei das bandas que misturam o estilo. Esse é o meu estilo. Os caras do metal têm um pouco de preconceito, mas você tem que fazer a coisa pra você. As bandas mais legais como Black Sabbath e Led Zeppelin também fizeram as coisas que queriam fazer e não foram compreendidos na hora. Depois, viraram referência para todo mundo. Não se pode levar muito em conta o que os outros estão querendo. É preciso ser honesto com você mesmo e fazer bem o que se propõe.
O nome da banda e os músicos vão mudar a cada novo disco ou esta é uma formação definida?
Max - Pretendo não mudar o nome da banda nem a formação. Por enquanto tá legal pra caramba. Mas não posso falar do futuro se ele envolve também outras pessoas.
O seu lado pessoal está condizendo com o nome Soulfly. Não é algo um pouco leve para uma banda pesada?
Max - O nome dá um contraste legal com a banda. Todo mundo esperava um nome mais pesado. Soulfly é uma palavra que não existe no dicionário. Significa algo assim como alma que voa. São duas palavras combinadas. Alma voando também dá uma idéia de presença espiritual ao redor. Soa bem e o significado também é bom.
Você já definiu quando será a turnê no Brasil?
Max - Pretendo ir ao Brasil lá por agosto. O disco está saindo agora nos Estados Unidos (foi lançado dia 21 de abril) e vou iniciar a turnê por aqui.
E a banda da turnê será a mesma do disco?
Max - Quando a Nação Zumbi puder vai estar presente. Senão seremos só os quatro. Agora, neste início de turnê, o próprio Lucio Maia não poderá participar porque está lançando o disco do Nação Zumbi. No começo da turnê o guitarrista será um cara do Machine Head, o nome dele é Logan. Ele foi convidado porque o Machine Head é quase um filho do Sepultura. O Logan é um guitarrista bom, de atitude, com responsabilidade internacional pois já participou de turnês.
Você participou tocando e gravando com outras bandas depois que saiu do Sepultura. Como está encarando estas participações?
Max - Acho legal. Depois do Sepultura, usei meu tempo da maneira mais positiva em termos de trabalho. Fiz o máximo que consegui. Compus o disco também. Não parei um segundo. Não tive nem tempo de falar mal do Sepultura. Toquei com o Nação Zumbi, participei de festivais e gravei no disco dos Deftones. Tudo foi muito bom.
Você está acompanhando o cenário das bandas brasileiras?
Max - Não tenho conseguido. Rola muita coisa nova a toda hora e fica difícil saber de tudo aqui nos Estados Unidos. Os discos não chegam. Tenho ouvido Nação Zumbi, Devotos do Ódio, Ratos do Porão e também a banda curitibana Core, que eu gosto muito e é de um amigo meu, o Alexandre. Sempre procuro dar a maior força para ele.
Que tipo de som você está escutando? Tem conhecido alguma coisa legal?
Max - Não está rolando muita coisa legal. Tenho ouvido Fundamental, um grupo com letras políticas. Mas gosto mesmo é de ouvir coisas mais velhas, como Black Sabbath e muito hardcore, como Charge e outras coisas rápidas. Hoje está uma monotonia ou todo mundo é techno ou é alternativo.
Você experimentaria uma aproximação com o techno?
Max - Não sei, talvez. Mas gosto de bateria de verdade. Algumas coisas techno até que são legais. Até o Prodigy tem algumas coisas legais. A Mobi quer fazer um remix de Umbabaraúma no próximo disco. Diz que curtiu a minha versão e que sempre foi fã do Sepultura.
Falando em Umbabaraúma, você aproveitou a música só por causa da Copa da França?
Max - Lógico que sabia que a Copa ia vir, mas não foi planejado. O Mario Caldato (produtor, ex-Beastie Boys) ouviu e deu apoio. Eu já gostava da música e tinha pontencial de fazer uma versão do caralho. O Lúcio também é fã do Jorge Ben. Mas desde o Sepultura nós sempre fomos de quebrar barreira, de fazer versões. Gravamos Titãs e ninguém esperava (gravaram a música Polícia). Tinha gente que torcia o nariz, mas quando tocávamos nos shows todo mundo saía dançando.
Sabe se o Jorge Ben já ouviu a sua versão de Umbabaraúma?
Max - Não sei. Eu não o conheço pessoalmente, mas tenho curiosidade de saber o que ele achou. O tratamento que demos à música é mais anos 90.
Como é o teu processo de composição? Você faz as músicas em casa ou no estúdio? Sozinho ou em grupo?
Max - É a maior zona. Eu não tenho horário nem dia para compor. A expressão artística não pode ter horário ou dia do ano. A letra eu escrevo na hora que rola a idéia e guardo até pegar de novo um dia e trabalhar em cima dela. Música é a mesma coisa. A primeira idéia é quase só comigo. Mesmo no Sepultura, eu levava as primeiras idéias e só depois trabalhava junto com a banda.


