O violoncelo em boas mãos
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2002
Zeca Corrêa Leite 
Curitiba O Prêmio Tchaikovsky de Moscou permitiu ao pernambucano Antonio Meneses ingressar no mundo das celebridades, nos anos 80. As portas se abriram, o mundo o conheceu, o maestro Herbert von Karajan idem e, a partir daí cumpriu turnê com Claudio Abbado e a Sinfônica de Londres pelos Estados Unidos, tocou sob as regências de André Previn, Riccardo Mutti e outros notáveis, com orquestras do nível da Concertgebow e Filarmônica de Nova York. Também integra o Beaux Arts Trio, que representa um dos mais refinados grupos do planeta.
Desde o início da semana Meneses está em Curitiba especialmente para dar aulas na 20ª Oficina de Música. Cumprido o expediente ele volta à Europa, onde uma apertada agenda o espera. Concertos e recitais estão marcados em diversos países, bem como apresentações do Beaux Arts Trio. É uma atividade febril de estudos, aeroportos, hotéis, teatros, trens. É um preço a pagar por aquilo que mais gosta: tocar. Em abril, o violoncelista retorna ao Brasil para concertos e recitais, mas Curitiba não está no roteiro.
Como você imagina que será o concerto no Canal da Música?
Eu não faço a menor idéia, porque vamos ter uma orquestra de estudantes. Então é gente inexperiente. Temos um regente (Cláudio Cruz) que é uma pessoa de muita tarimba, justamente com esse tipo de repertório e de conjunto. Já toquei com ele esse concerto de Haydn ele como spalla da orquestra , e tenho certeza que terá muita tarimba para a coisa. Espero que saia o mais bonito, o mais especial possível.
Para você, tocar junto de estudantes é algo incomum?
Sim, é incomum. Não acontece muitas vezes. Mas acho que é uma coisa importante para eles terem a chance de trabalhar com um solista que já tocou essa obra muitas vezes, que tem experiência, que conhece bem a obra. Certamente para os estudantes isso é de grande valia.
Você veio ao Brasil unicamente para este festival ou sua viagem irá desdobrar-se em novas apresentações?
Neste momento foi por esse convite do Alex Klein. Estive no Brasil em dezembro, voltei para passar o Natal na Europa e vim agora, por uma semana, especialmente para isso. Daqui volto para recitais na Itália (vou tocar em Torino, Palermo), depois tenho recitais com o Trio (Beaux Arts). Gosto muito de tocar com o trio, apesar de ser trabalhoso, tenho que viajar muito, tem muito concerto, mas é bacana.
Onde está o desafio maior: trabalhar com o trio ou solo?
Agora, no momento, o desafio maior é justamente isso: é uma vida muito trabalhosa. Muitos ensaios, muitas viagens e isso não é necessariamente aquilo que realmente gosto de fazer que é viajar muito. Sabe, chego numa cidade, toco o concerto, abro a mala, fecho a mala, pego o trem de novo. Não é o estilo de vida que me agrade muito, mas na música de câmara isso é normal.
Nessa passagem pela Oficina de Música, como você sente os alunos que estão tendo aulas? Eles prometem?
É tudo gente que tem muito interesse, por isso mesmo que estão aqui. Eles querem ver quais as possibilidades que têm na vida e essa é a razão por eu ter aceitado vir também. Para mostrar um pouquinho do que é possível no mundo do violoncelista, da música. Espero que saiam daqui podendo sonhar um pouco mais com um futuro onde possam chegar ao máximo de si mesmos. Tem alguns talentos particulares, sim.
Você tem trabalhado com jovens estudantes também no exterior?
Já dei muita aula. Até dois atrás era professor no Conservatório de Baasel. Agora não estou mais dando aula num lugar fixo, mas continuo dando master classes. Isso é muito importante. Este ano farei a mesma coisa que aqui, em duas ou três cidades da Europa. No Brasil já fiz em Campos do Jordão e em lugares mais isolados. Não tanto quanto gostaria, muitas vezes por falta de tempo.
O que o fez aceitar vir a Curitiba?
Justamente o convite especial do Alex e da Janete, mas quem me contatou primeiro foi Eunice Brandão (que viria a falecer mais tarde). Disse-lhe que tendo tempo e um convite oficial, eu viria com muito prazer. Porque é um tipo de coisa que é importante. Os brasileiros que foram para fora venceram e os que ainda estão lá precisam vir aqui o máximo possível para participar e dar um pouco do que aprenderam. É o que está acontecendo. Tem vários brasileiros que estão trabalhando lá fora, mas que vêm porque é importante dar seguimento a esse trabalho aqui também. Mostrar um pouco daquilo que aprenderam e para o pessoal daqui ver: Olha, é possível fazer isso. Vocês todos são capazes de fazer isso, é só se esforçar um pouco.
Então tem um olhar filosófico nessa atitude?
Claro, isso é muito importante. Eu me lembro quando tinha acabado de terminar o meu curso na Alemanha, e fui tentar renovar o visto para ficar lá como residente. A primeira coisa que o oficial disse foi: Não. O senhor veio para cá e agora tem que voltar ao Brasil e passar adiante o que aprendeu aqui. Ele tinha razão, só que eu tinha planos que iam muito além disso. Para mim, era melhor naquele momento continuar na Europa e reforçar meu trabalho, para depois então poder voltar e começar, em casos como este, a dar um pouquinho do que aprendi.


