A ideia de que o tempo, por si só, é capaz de curar todas as feridas encontra um contundente contraponto na literatura. Em “Racismo, Constante como o Tempo”, o escritor estreante e violoncelista mineiro Carlos Márcio (@carlosmarciocello) entrega uma obra que funciona ao mesmo tempo como um manifesto, um grito e um ato de amor.

Vencedor do Prêmio Resistência 2025, da Editora Arte da Palavra, o livro percorre mais de quatrocentos anos de história para provar sua tese central: o racismo não é um resquício do passado, mas uma estrutura que se renova e se adapta, persistente e insidiosa.

A obra conta com prefácio da professora e ativista Rosália Diogo (Pós-doutora em Antropologia pela Universidade de Barcelona) e posfácio de Carlos Aleixo dos Reis, primeiro professor negro a alcançar a titularidade na Escola de Música da UFMG em cem anos de história. Ambas as vozes reforçam a importância de uma obra que "nasce da pele e do arco do violoncelo, transformando a dor em ritmo e o silêncio imposto em linguagem de enfrentamento".

Natural de Sabará (MG), graduado em violoncelo e mestre em Performance Musical pela UFMG, Carlos Márcio transita com naturalidade entre a música erudita e a literatura, costurando sua trajetória pessoal à memória coletiva da população negra.

“O violoncelo me emprestou um ouvido para o mundo; a escrita me deu uma língua para que tantos olhos enxerguem os silêncios que insistentemente são naturalizados”, define o autor, que atua há mais de uma década na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. É dessa perspectiva única – a de um artista negro imerso em um espaço historicamente branco – que nasce a potência de sua escrita.

A obra é dividida em três frentes. Nos poemas, a ironia e a dor se misturam para retratar cenas cotidianas de racismo, das abordagens policiais às barreiras impostas em portarias de prédios. Um dos casos aconteceu no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, onde o autor trabalha. Nas crônicas, o autor captura microagressões e absurdos que a sociedade já naturalizou. Já no ensaio “Devoção, memória e racismo estrutural: caminhos da escuta”, Carlos Márcio constrói um inventário de horrores, conectando a bula papal que autorizou a escravidão no século XV, os experimentos médicos com negros no Alabama do século XX, e a naturalização de um passado que insiste em não passar.

O livro também confronta o revisionismo histórico ao questionar a romantização de figuras ligadas à escravidão, seja em estátuas, nomes de ruas ou, mais recentemente, em produções artísticas. A análise parte de uma experiência pessoal do autor, que, como todo trabalhador, não tem escolha ao apertar os parafusos diários: na rotina de um músico de orquestra, diferente do que imagina o senso comum, não há controle sobre o que se toca — em 90% das ocasiões, não executa-se sua música favorita e sobretudo, há quando se toca uma ópera, o profissionalismo exige uma execução exemplar com um repertório que não reflete suas convicções.

Foi assim que Carlos Márcio se viu obrigado a integrar, como violoncelista, uma ópera sobre um bandeirante escravagista, percebendo, no silêncio imposto aos corpos negros em cena, o eco de um apagamento que se repete há séculos.

É na contramão desse silêncio que ele inscreve, na dedicatória do livro, um de seus versos mais impactantes: "A todos que um dia me fizeram sentir o racismo: vocês despertaram em mim a escrita. Agora, leiam. Se puderem", transformando a própria trajetória de subalternidade em ato de enfrentamento e criação.

O AUTOR

Carlos Márcio (Carlos Márcio Norberto Bicalho) é violoncelista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, natural de Sabará (MG). Conheceu o instrumento aos 17 anos por meio de um projeto social na Sociedade Musical Santa Cecília, graduando-se em violoncelo e tornando-se mestre em Performance Musical pela UFMG.

Muito antes de pensar em publicar, a escrita já havia se instalado como ferramenta de cura diante do racismo cotidiano — "tudo que foi escrito no livro não cabe nas conversas sociais porque nós estamos cansados", explica. São versos e reflexões nascidos da percepção de suas vivências e do mergulho na História, onde compreendeu que "a Lei Áurea foi sussurro de liberdade, fábula de igualdade e alegoria de fraternidade".

Em 2025, aos 38 anos, Carlos Márcio venceu o Prêmio Resistência com "Racismo, Constante como o Tempo", estreando já laureado e oferecendo ao público uma obra em que a música e a palavra se encontram para romper o silêncio de séculos.

Quando a avó, Maria, adoeceu com Alzheimer, Carlos sentiu a urgência de registrar sua história e o livro está entre os vencedores do Concurso Frauta de Barro 2025/2026, promovido pela Editora Valer. A obra premiada, Ave, Maria, foi selecionada na categoria Crônica e passa a integrar o grupo de títulos escolhidos pela editora nesta edição do prêmio. A conquista no Frauta de Barro representa não apenas um reconhecimento editorial, mas a entrada da obra no circuito de publicação de uma das casas mais importantes da região Norte

O lançamento oficial de “Racismo, Constante como o Tempo” será no próximo dia 22, no Teatro Municipal de Sabará (MG). No dia, o evento será um Concerto-Lançamento, com uma performance especial de Carlos Márcio ao violoncelo.

(com assessoria de imprensa)

Imagem ilustrativa da imagem O violoncelo e a palavra, a voz de um artista negro

SERVIÇO

Racismo, Constante como o Tempo

Carlos Márcio (Carlos Márcio Norberto Bicalho)

Poesia, Crônica, Ensaio

Editora: Arte da Palavra

Prêmio: Prêmio Resistência 2025

Número de páginas: 102

Prefácio: Rosália Diogo (Pós-doutora em Antropologia pela Universidade de Barcelona)

Posfácio: Carlos Aleixo dos Reis (primeiro professor negro titular da Escola de Música da UFMG)

Onde comprar: https://www.aartedapalavraeditora.com/product-page/racismo-constante-como-o-tempo

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