"O Violino Vermelho" sai em vídeo sem passar pelos cinemas16/Mar, 14:47 Por Luiz Zanin Oricchio São Paulo, 16 (AE) - A idéia do diretor François Girard para "O Violino Vermelho", que sai em vídeo sem ter passado pelos cinemas, é seguir a trajetória de um instrumento musical ao longo dos séculos. No caso, um valioso violino criado em 1681 pelo artesão Nicolo Bussotti. Ele passa de mão em mão e, claro, a sua posse determina de certo modo a história dos personagens envolvidos. Ele é acompanhado desde a sua fabricação, passando depois por um monastério, do qual sai para uma criança prodígio até chegar a uma vítima da Revolução Cultural, na China dos anos 60. Em nossa época mercantil, previsivelmente o violino é objeto cobiçado em um leilão de milionários. Nenhuma passagem desse percurso é gratuita, o que depõe a favor de François Girard, cineasta canadense conhecido aqui por seu "32 Curtas sobre Glenn Gould". Quer dizer, o filme é pensado, o que não quer dizer pouca coisa hoje em dia. Assim, o instrumento nasce numa época em que prevalece o artesanato. E nasce sob o signo da paixão de quem o constrói (Carlo Cecchi) por sua mulher, morta durante um parto complicado. A excepcional qualidade do instrumento viria da libido nele implicada. Atravessa épocas diferentes e chega à nossa, afinal reduzido a mera mercadoria, com seu valor contábil apregoado em um leilão. No meio do percurso, entre outras peripécias, ilustra e dá sentido ao caso amoroso do compositor britânico Frederick Poper (Jason Flemyng) com a romancista Victoria Byrd (Greta Scacchi). Apesar dessa coerência interna, "O Violino Vermelho" não chega a ser um bom filme. Parece um tanto artificial, aqui e ali, e oscila entre momentos inspirados e outros sem função definida. Seu ponto forte é a trilha sonora, categoria na qual concorre ao Oscar. Mas a qualidade das músicas não chega a salvá-lo totalmente. Merece uma absolvição parcial, se tanto, pelo pecado da mistura desequilibrada de tons narrativos. Não que se exija realismo a todo custo. Pelo contrário. "O Violino Vermelho" pode ser lido, por exemplo, como uma parábola da reificação, se se quiser empregar o termo marxista. Ou seja, no mundo das mercadorias, se tudo vira coisa, incluindo os relacionamentos humanos, o que dirá de um objeto, mesmo que seja um instrumento raro? Perda da aura, para deslocar mais um pouco a questão. Acontece que o tom empregado é o realista, mas este não se sustenta no desenvolvimento do tema. Enfim, se não chega a desafinar feio, Girard, pelo menos, escorrega em algumas escalas infantis. De qualquer ângulo que se veja, esse seu novo trabalho é regressivo em relação à estimulante e livre biografia que fez de Glenn Gould, seu genial compatriota. Serviço - "O Violino Vermelho". Dir. François Girard, com Greta Scacchi, Jason Flemyng. Warner

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