''Chuva. Um dia após o outro, semanas e meses. Não parava de cair água. Isso foi no tempo que só viviam os índios aqui no Brasil. Com os rios enchendo e as lagoas também, as águas começaram a subir. Os animais e as pessoas iam para cima das montanhas, com medo de se afogar. Um pajé, chamado Nuá, viu que era preciso resolver a situação.''
Assim começa uma das 12 histórias que estão no livro ''Nuá, as músicas dos mitos brasileiros''. É isso mesmo, além das histórias o livro tem 12 músicas, uma para cada mito. Foi assim que o violeiro Paulo Freire juntou duas das coisas que mais gosta nessa vida: tocar viola e contar histórias.
''Tem uma tradição muito grande de contação de histórias entre os violeiros. Eu sempre gostei muito de ouvir essas histórias, mas não como profissional, como curioso. Ouvia por prazer. Depois, comecei a fazer oficina de contação de histórias e fui guardando. Quando surgiu o patrocínio da Petrobras, eu resolvi juntar os mitos e a música, e deu nisso'', conta.
Pensando bem, esse projeto só podia mesmo ter vindo dele, um apaixonado pelo folclore e pela história do Brasil, que fez questão de se mudar para o Sertão do Urucuia, em Minas Gerais, só para viver no cenário de ''Grandes Sertões: Veredas'', de Guimarães Rosa. Naquela época, no final da década de 70, Paulo tinha apenas 19 anos, mas a paixão foi tão certeira que lá ele se tornou um violeiro, depois conhecido nacionalmente, autor de sete discos, livros e várias trilhas de sucesso na tevê.
Um dos segredos da viola desse artista é a comunhão com a natureza. ''Lá no sertão eles fazem assim, observam a natureza e depois trazem ela para dentro da viola'', explica Paulo. Por isso, quando pedem que ele ensine a arte, ele manda o ''aluno'' para o sertão. ''Não tem como ensinar isso dentro de uma sala'', aponta.
Mas nem todos podem ir morar no sertão para aprender viola. E o próprio Paulo reconhece que o instrumento está ganhando fãs e mestres no País. ''A viola está num momento muito especial. Tem talentos incríveis, como o Rogerio Gulin, aí do Paraná, e muita gente boa. Cada um procura seu próprio caminho'', admite.
Neste novo livro, Paulo reúne lendas dos quatro cantos do Brasil. Há figuras conhecidas, como o Curupira e o Coisa-Ruim, e outras quase inocentes como a família dos tangarás. Tem um pouco de horror na ''Cabeça voadora'' e no ''Cunhado de lobisomen'', e também uma pitada de sensualidade e erotismo. ''Cada história é especial. Eu queria trazer um pouco de todo o Brasil, com sotaques e ritmos diferentes. No fim das contas, acho que foram as histórias que me escolheram'', brinca Paulo.
E ainda sobraram ''causos'' e lendas suficientes para escrever mais um livro, que ele pretende lançar no ano que vem. ''Estou preparando um romance. O personagem é um viajante que sai andando pelo País e vai se encontrando com os mitos brasileiros'', adianta o escritor.
As músicas do livro são bem diferentes entre si. Cada uma assinada por um arranjador, o que garantiu uma riqueza de detalhes tão ampla quanto as histórias.
O projeto inclui uma turnê de shows por onze cidades do País neste mês de julho. Hoje, é a vez de Curitiba receber a visita do artista, que leva um quarteto de viola, baixo, percussão e clarinete para tocar com ele. ''A gente canta as músicas do livro e eu conto algumas das histórias'', diz Paulo.
Agora, se você quiser saber como o pajé Nuá resolveu o problema da enchente, leia o livro. Afinal, jornalistas também são contadores de histórias, mas não chegam aos pés dos violeiros.
SERVIÇO
- CD e livro Nuá - As Músicas dos Mitos Brasileiros
Autor - Paulo Freire
Distribuição - Tratore
Quanto - R$ 22 (59 pág.)
- Show em Curitiba
Quando - Hoje, 21h
Onde - Teatro Paiol
Quanto - R$ 10 e R$ 5 (meia)
Mais informações - (41) 3213-1340

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