O violão por testemunha
Mauro Dias
Agência Estado
Paulinho da Viola e Toquinho levaram 30 anos para o reencontro em cena. Em 1969, ambos iniciando carreira, cantaram num espetáculo que tinha também Araci de Almeida e o Trio Mocotó. Eram iniciantes, pouco conhecidos (embora já tivessem músicas de sucesso). A segunda vez, este ano, foi um sucesso estrondoso primeiro em São Paulo, no ano passado, depois no Rio de Janeiro.
O reencontro foi gravado. O show, completo, está no CD duplo Sinal Aberto. O espetáculo foi gravado em 14 e 15 de setembro, durante a temporada em que o Teatro João Caetano, no centro do Rio, foi pequeno para tanto público. Quatro mil pessoas viram o show. Outras tantas ficaram de fora.
Que pontos de contato terão Paulinho da Viola e Toquinho? Um é negro, carioca, íntimo das escolas de samba, criado em rodas de choro, na qualidade de filho do grande chorão César Farias; o outro, três anos mais jovem, é paulistano, descendente de italianos. Pois as afinidades musicais, considera o crítico João Máximo, que escreveu o texto de apresentação do disco, são muitas, e o show as revelou ou lembrou.
Não só isso. Máximo lembra que, em 1969, Fernando Faro dirigia um festival mensal realizado pela TV Record, em São Paulo. Paulinho apresentou Nada de Novo, só dele, e Toquinho, Que Maravilha (dele e de Jorge Ben Jor). Ficaram empatados no primeiro lugar.
Nada de Novo é um samba triste, de versos descritivos (Papéis sem conta sobre a minha mesa/ O vento espalha as cinzas que deixei/ Em forma de poemas antigos, relidos/ Perdido, enfim, confesso, até chorei), impregnados de dor. Uma história de perda. Que Maravilha é o oposto (Ela vem toda de branco/ Toda molhada e despenteada/ Que maravilha, que coisa linda é o meu amor). História de encontro.
Paulinho e Toquinho cantam juntos as duas músicas, na abertura do disco. Primeiro, Nada de Novo; depois, Que Maravilha. Como se a segunda respondesse à primeira. Toquinho, este samba é uma coisa que eu tenho um carinho muito especial por ele; eu cantei muito esse samba, mas não tinha gravado ainda; é uma lembrança de duas pessoas que a gente traz com muito carinho: Cartola e Carlos Cachaça, anuncia Paulinho e canta Tempos Idos. Cantam juntos, depois, Na Cancela, canção pouco conhecida de Caymmi.
Em seguida, Toquinho mostra um Chico Buarque também quase insabido, Desencontro. E assim vão eles, mostrando quem, que músicas os formaram, no prazeroso diálogo de belas músicas. Tem algumas canções que fazem parte do meu aprendizado de violão, diz Toquinho e toca um pot-pourri de Jobim. Paulinho lembra a primeira parceria com Hermínio Bello de Carvalho, Duvide-o-dó, um samba que revela o talento dos iniciantes alguns dos maiores sucessos de Paulinho foram feitos em parceria com Hermínio.
Eles fecham o segundo CD, depois de vasculhar o passado em sambas, valsas e choros, com a parceria Caso Encerrado, lançada no show, número do bis, um samba que mistura as marcas registradas dos dois autores. Você disse que não voltaria jamais, diz a letra. Eles voltaram.





