Nelson Sato
De Londrina
O peso do currículo já seria suficiente para recomendar o show do violonista paulistano Marco Pereira. A apresentação acontece hoje, às 20h30, no Teatro Crystal Palace, em Londrina.
O show faz parte da turnê promocional do CD Valsas Brasileiras, uma produção independente com onze faixas de violão solo. É o quarto disco do músico, cujo repertório inclui duas peças de sua autoria e recriações de clássicos como ‘‘Beatriz’’ (Edu Lobo e Chico Buarque), ‘‘Desvairada’’ (Garoto) e ‘‘Luiza’’ (Tom Jobim).
Na apresentação, Pereira vai mesclar músicas de seu novo disco, composições inéditas e faixas dos trabalhos anteriores. No palco será acompanhado por Jorge Helder no contrabaixo, Itamar Assiere nos teclados e Pepa D’elia na bateria. ‘‘Não queria fazer um show só de valsas. Acho que ficaria meio cansativo’’ – disse ele, por telefone, do hotel onde está hospedado em Florianópolis.
Entre as inéditas, ele vai mostrar ‘‘Expresso 2222’’, de Gilberto Gil. A turnê já passou por várias cidades e deve terminar no Rio de Janeiro no próximo mês, quando começa a dar os retoques finais em um novo CD, já intitulado Luz das Cordas. ‘‘Ele já está praticamente pronto, falta mixá-lo’’ – avisa. Nesta empreitada, Marco Pereira toca em duo com o bandolinista brasiliense Hamilton de Holanda.
Além desse projeto, ele engatilha mais dois álbuns: um erudito (‘‘um capricho meu, com violão e orquestra’’) e outro orientado para o mercado norte-americano (‘‘estou gravando com a formação de trio, como fazem os pianistas de jazz’’). Pereira é rodado e seu currículo dispensa comentários.
No final do ano, viaja à Polônia e Estados Unidos. Já fez concertos na Alemanha, França, Suíça, Dinamarca e Canadá. No Brasil, esteve quatro vezes no palco do Free Jazz. Foi premiado com o Sharp em 93 como melhor arranjador pelo disco ‘‘Gal’’, de Gal Costa e em 94 como melhor solista instrumental e melhor disco instrumental pelo trabalho ‘‘Bons Encontros’’, com Cristóvão Bastos.
A seguir, os principais trechos da entrevista que Marco Pereira concedeu à Folha2, por telefone.
Como surgiu a idéia de lançar um CD exclusivamente com valsas brasileiras?
Esse é um projeto antigo, que tem mais ou menos uns quinze anos. A idéia nasceu na França onde fui estudar e tomei contato com o jazz. Quando ouvi o disco ‘‘Ballads’’, do saxofonista John Coltrane, fiquei fascinado. Eu conhecia os trabalhos arrojados de jazz contemporâneo dele, mas não conhecia sua expressão lírica. Fiquei com desejo profundo de fazer um trabalho parecido. Aí pensei: a balada não faz parte da tradição musical brasileira, mas a valsa tem semelhanças. A valsa é o gênero que melhor expressa nosso lirismo, especialmente a vertente moderna com seus contornos melódicos e melodias sofisticadas. Selecionei umas 50 valsas e escolhi doze para entrar no CD. O curioso é que gravei músicas consagradas como ‘‘Luiza’’ e ‘‘Beatriz’’, que muitas pessoas conheciam apenas como canções e nem sabiam que eram valsas.
Como você define seu estilo? Que influências você absorveu para compor seu trabalho como instrumentista?
Desde o primeiro disco venho tentando manter uma linha, um estilo de tocar que traz elementos da música brasileira, do clássico e do jazz.
Você passou cinco anos na França. Qual foi a importância dessa temporada para a sua formação musical?
Fui lá atrás de informação. Na época, eu era ainda um estudante e estava muito envolvido com música erudita e ouvia muito os compositores clássicos alemães. Na verdade, meu projeto era estudar na Alemanha, só que não consegui me adaptar. Depois fui a Paris, tive contatos com a linguagem do jazz e acabei definindo meu estilo. O interessante é que tive um aprendizado extra, que é poder observar o meu país de fora. Assim, pude fazer reflexões sobre a minha identidade.
Além de gravar discos e fazer shows, você tem encabeçado alguns projetos voltados para a difusão de música instrumental. Fale sobre eles.
No ano passado desenvolvi um projeto bem-sucedido no Teatro Leblon (zona sul carioca), que reuniu artistas como Wagner Tiso, Hermeto Paschoal, Paulo Moura, Dominguinhos e outros. O evento chamou-se ‘‘Grandes Encontros’’. A idéia era resgatar shows em teatros, porque a música andou se deslocando para bares e choperias. Não tenho nada contra nenhum espaço, e todos são bem-vindos, mas acho que é o teatro que propicia a magia, a concentração e uma apreciação maior da atuação do músico. No teatro, não vai ter nenhum garçom passando na frente com a caipirinha. Esse projeto foi um sucesso total. O outro projeto estou desenvolvendo em Niterói (RJ), onde organizo um festival de música instrumental. Quero trazer de volta o espírito inicial do Free Jazz, que desandou por interesses comerciais e hoje em dia virou um festival de world music onde cabe de tudo.
Afinal de contas, dá para viver de música instrumental no Brasil?
Apesar do mercado fonográfico estar dominado pelos produtores e todas as relações serem estabelecidas pelos cifrões, há canais que podem ser explorados. A música instrumental possui um público fiel, criterioso, que vai ao show ou compra o disco por opção e não por imposição da mídia. E existe ainda uma vantagem: a música sem palavras atravessa com muito mais facilidade as fronteiras. No mês passado, toquei em quatro festivais na França, em outubro estarei na Polônia e em novembro farei uma turnê nos Estados Unidos. Os músicos precisam parar de se lamentar e ir à luta.
• Show com o violonista Marco Pereira. Hoje, às 20h30, no Teatro Crystal Palace (Rua Quintino Bocaiúva, 15). Participação de Jorge Helder (contrabaixo), Itamar Assiere (teclados) e Pepa D’elia (bateria). Ingressos a R$ 20,00 (estudantes e idosos pagam meia). Na ocasião, o músico estará lançando o CD ‘‘Valsas Brasileiras’’

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