O VINHO CONTRA O NADA
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de junho de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Se a vida é um poço de incertezas, onde o passado é um cachorro morto e o futuro uma possibilidade nunca alcançada, resta ao homem apenas hospedar-se no hotel do presente. Assim podem ser resumidos os princípios que o poeta persa Omar Khayyam eternizou no clássico Rubaiyat. Em síntese, o único sentido da vida está em viver, apenas e simplesmente.
Escrito há quase mil anos, o Rubaiyat ainda permanece com um certo frescor de orvalho de outono. Seus versos preservam altas doses de liberdade, o instante do presente sem falsidades. Desenha a figura do vinho como a melhor companhia para suportar o abismo da existência. Rubaiyat é o maior dos clássicos da literatura persa que se tornou conhecido nos quatro cantos do planeta. Chegou ao ocidente através de uma tradução francesa, mas ganhou projeção com a versão inglesa feita por Edward Fitzgerald, publicada em 1859. Ganhou grande popularidade por entrar em choque com a moral da época e acabou recebendo várias releituras.
A Editora Ediouro acaba de relançar a versão do poeta Manuel Bandeira de Rubaiyat, publicada originalmente na década de 50. Nela, Bandeira recusa a lendária versão de Fitzgerald por considerá-la muito distante do texto original de Omar Khayyam. Nesse sentido verteu os poemas para o português a partir da versão francesa de Franz Toussaint, de 1898. A mesma utilizada nas versões portuguesas de Octávio Tarquinio de Sousa e Guilherme de Almeida.
Apesar de tornar-se famoso como poeta pela autoria de Rubaiyat, Omar Khayyam (Adu ol-Fath edn-Ebrahim Omar ol-Khayyami, seu nome verdadeiro) foi um respeitado matemático e astrólogo oriental do século 9. Nasceu em 1048 na cidade de Nishapur, na Pérsia (atual Irã). Alguns autores apontam que ele teria nascido em datas diversas como em 1040 e 1050. Seu sobrenome é uma homenagem ao pai, fabricante de tendas Khayyam, em persa, significa literalmente fabricante de tendas.
Diz a lenda que, quando estudante, fez um pacto com dois amigos. O trio jurou que se um deles ficasse rico, ajudaria os outros dois. O fato foi que um deles recebeu uma fortuna de herança e, cumprindo a promessa, dividiu o dinheiro com os amigos. Khayyam recebeu uma recheada pensão e acabou nomeado diretor de um importante observatório astronômico de seu país. Publicou várias trabalhos de álgebra e foi responsável pela reforma do calendário muçulmano.
Rubaiyat reúne 170 poemas estruturados em quadras (simples e duplas). O próprio terno rubaiyat é o plural de rubay, que significa quadra na língua persa. Em seus versos, Khayyam declara que a vida é uma beco sem saída. De um lado o passado desinteressante, de outro o futuro totalmente incerto e carregado de decepções. Nesse beco, apenas o presente faz sentido e, mesmo assim, para alimentar a coragem de se manter vivo é necessário mergulhar em tonéis de vinho.
A embriaguez pregada por Khayyam é sua maneira de dizer como a vida é efêmera e vulnerável. Não há lugar para esperanças: as pessoas nascem para morrer. E o mistério que se instaura entre uma coisa e outra deve ser respirado com tranquilidade, sem ilusões. Até mesmo o amor deve ser encarado como algo passageiro que invade os corações e desaparece como uma ventania, deixando os sentimentos desarrumados.
Diante desse quadro, Khayyam recomenda que devemos viver sem criar expectativas em relação à vida. Apenas seguir nos relacionando com as coisas como elas são, sem maiores dramatizações. Viver o presente como se fosse a única opção da existência. E quando a morte chegar, entregar-se a ela com um sorriso no rosto. Embora tenha quase mil anos nas costas, os poemas do Rubaiyat não tiveram nenhum dos lados de sua alma abalada.
Rubaiyat - De Omar Khayyam, tradução de Manuel Bandeira, Editora Ediouro, 148 páginas, capa dura, R$ 25,00.


