Paulo Polzonoff Jr
De Curitiba
Especial para Folha2
Ler Fernando Jorge, em seu panfletário ‘‘A Academia do Fardão e da Confusão’’ (Geração Editorial, R$ 35,00) é deparar-se com um raro momento de fúria jornalística. Fernando Jorge faz daquilo que tinha tudo para ser uma boa reportagem um calhamaço de ressentimentos, ofensas e piadas de mau gosto.
O autor já tinha mostrado seus dotes de mau argumentador com ‘‘Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis’’ (Geração Editorial), no qual tenta provar que o jornalista não tinha sequer uma frase de punho próprio. Para quem pensava, porém, que Fernando Jorge não poderia escrever coisa pior, eis este ‘‘A Academia do Fardão e da Confusão’’, uma prova de que o jornalista pode se superar ainda mais na difícil arte de mal polemizar.
Qualquer credibilidade que as quase 600 páginas do livro possam ter é destruída logo na página 11, com uma nota de admiração no mínimo curiosa: ‘‘O autor deste livro expressa sua admiração por VERA LOYOLA (grifo do autor), líder das ‘socialites’ da Barra da Tijuca, dona de uma rede de padarias, mulher muito invejada e inteligentíssima, de grande personalidade, cujo intelecto é superior ao de trinta membros da ABL, sobretudo quando esses ‘imortais’ mortais se reúnem na hora do chᒒ.
Os argumentos (se é que se pode dizer assim) caem por terra um a um com o vocabulário chulo, o egocentrismo descabido e a evidente má-fé com que o livro foi escrito. Ao leitor é nítido o ressentimento de Fernando Jorge em relação a esta instituição que, se não pode ser considerada um bastião da inteligência e da democracia, tampouco pode ser considerada, como quer Fernando Jorge, um grêmio de medíocres, mancomunada com todo o tipo de politicagem que se pode imaginar. Fernando Jorge faz questão de frisar, linha após linha, que a Academia Brasileira de Letras é uma instituição cujo patrimônio chega a vários milhões de dólares, como se patrimônio fosse atestado de desonestidade.
A Academia Brasileira de Letras foi fundada à semelhança da Academia Francesa, criada em 1635 pelo cardeal Richelieu. Somente o fato de a Academia Brasileira não ter sido a pioneira no mundo é suficiente para Fernando Jorge considerá-la: ‘‘ridícula, simiesca, desprovida de autenticidade’’. Na página 23, lê-se a frase: ‘‘A Casa de Machado de Assis é estéril como o útero de uma mula’’.
Insuportável também é a intimidade que Fernando Jorge pretende estabelecer com o leitor, chamando-nos um sem-número de vezes de ‘‘meu amigo leitor’’. Este coloquialismo falso só faz parecer que se está participando de uma irresponsável conversa de botequim.
Não faltam ofensas gratuitas aos acadêmicos, que nada têm a ver com as qualidades literárias destes. Sobre Nélida Piñon, diz o autor: ‘‘Interessante, ela me fornece a impressão de estar ficando cada vez mais redonda, cada vez mais cilíndrica ou esférica, depois de haver sido presidente da Academia. Inchaço de uma vaidade verbosa e espaventosa?’’ Mais: Fernando Jorge compara Antônio Houaiss ao Nosferato de Murnau, faz considerações sobre a obesidade de Jorge Amado, a suposta masculinidade de Rachel de Queiroz e sobre a beleza de Lygia Fagundes Telles, segundo ele um defeito crônico. Por ser a Academia uma instituição cuja média de idade de seus membros ultrapassa, e muito, os 50 anos, Fernando Jorge não poupa adjetivos que tentam desmoralizar o caráter septuagenário da ABL: ‘‘(...) Velhotes ranzinzas, desdentados, encarquilhados, reumáticos e catarrosos’’.
Sobre o próprio caráter e as qualidades do seu livro, porém, Fernando Jorge não poupa auto-elogios, como revela esta passagem: ‘‘Bem espontâneo, antiacadêmico sob todos os aspectos, o livro que o leitor está lendo. (...) Isento de sofismas, mostra a naturalidade de uma conversa franca, inimiga dos engodos da hipocrisia’’. Citando Ronald de Carvalho, que escreveu que ‘‘a crítica é uma obra de f钒 e que ‘‘o verdadeiro crítico é um homem necessariamente parcial’’, Fernando Jorge referenda sua ‘‘virilidade estilística’’. E no final, destila esta pérola: ‘‘A imparcialidade, frequentes vezes, é o disfarce do medo e do farisaísmo, é o irresoluto e covarde Pôncio Pilatos lavando as mãos diante do povo e deixando Jesus Cristo ser condenado à morte’’.
Por ocasião do lançamento de ‘‘A Academia do Fardão e da Confusão’’, Fernando Jorge concedeu, por telefone, uma entrevista à Folha2.

PERFIL
Jornalista e bacharel em Direito, Fernando Jorge construiu sua carreira em cima de polêmicas. Em 1965 lançou ‘‘Vida e Poesia de Olavo Bilac’’, livro que foi proibido por Austregésilo de Athayde de entrar na Academia Brasileira de Letras. Considerado um escritor subversivo, foi processado quatro vezes durante a ditadura militar. Uma peça baseada em seu livro ‘‘O Grande Líder’’, de 1970, foi censurada. Em 1987 escreveu aquele que considera ‘‘o primeiro livro a descrever, de modo minucioso, as torturas aplicadas a jornalistas durante a revolução de 64’’, intitulado ‘‘Cale a Boca, Jornalista!’. Recentemente lançou ‘‘A Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis’’, no qual questiona a autenticidade de frase por frase do jornalista, morto em 1996. O livro foi apontado por Alberto Dines como um dos causadores da morte de Paulo Francis. Fernando Jorge vangloria-se de ser verbete em diversos dicionários e enciclopédias. Também escreveu crônicas, ensaios e dicionários.Fernando Jorge multiplica ofensas contra a ABL no livro ‘‘A Academia do Fardão e da Confusão’’
DivulgaçãoFernando Jorge: ‘‘Não entendo como João Ubaldo, um fanfarrão, um boêmio, pode estar no meio daqueles velhos reumáticos e catarrentos’’Reprodução

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