O VIAJANTE DO REFRESCO ELÉTRICO
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de dezembro de 2001
Marcos Losnak - <br>De Londrina<br>Especial para a Folha2 
Atualmente Ken Kesey é um nome praticamente esquecido. Romancista norte-americano nascido em 1935, ele é considerado o pai do movimento hippie que floresceu no início dos anos 60 nos EUA e ganhou o mundo com o lema ''paz e amor''.
No último dia 10, os jornais noticiaram sua morte em pequenas notas de três ou quatro linhas. Corroído por um câncer no fígado, faleceu aos 66 anos de idade, após várias cirurgias num hospital do Oregon. Tinha mais horas de vôo em viagens de LSD que Timothy Leary, o cultuado ''papa do ácido''.
Rotulado de ''profeta da era psicodélica'', Ken Kesey era um sujeito normal, bacharel em Ciências pela Universidade de Oregon, até ter sua primeira experiência com LSD. Tudo começou quando, precisando de dinheiro, resolveu participar como cobaia paga de um projeto de pesquisa financiado pela CIA. O objetivo da pesquisa era estudar os efeitos de uma nova droga produzida em laboratório, a intitulada LSD-25.
Após a experiência, Ken Kesey resolveu abraçar a carreira de romancista escrevendo um livro perturbador: ''Um Estranho no Ninho''. Publicado em 1962, a obra realizava uma crítica feroz, e ao mesmo tempo satírica, aos instrumentos utilizados pelas instituições para anular a individualidade das pessoas. Contava a história de um homem que, para sair da cadeia, fingiu-se de louco para ser transferindo para um hospital de doentes mentais. No hospício, ele leva psiquiatras e enfermeiras à loucura incentivando todos os internos à rebeldia.
Rapidamente o livro tornou-se best-seller, e Ken Kesey, um escritor famoso da noite para o dia. A obra seria transformada em filme posteriormente, em 1975, com direção de Milos Forman e Jack Nicholson no papel principal áá e acabaria recendo os principais Oscar daquele ano (melhor filme, direção, ator, atriz e roteiro).
Quando todos esperavam que Ken Kesey entraria pelas portas abertas do campo literário, tornando-se um escritor respeitado pela academia, executou um caminho inesperado. Comprou um ônibus, pintou-o com cores berrantes, e reuniu sob seu comando um grupo de jovens ávidos por aventuras e loucuras. Elegeu o beat Neal Cassady como motorista oficial.
A bordo do ônibus que tinha no local da placas as palavras ''Cuidado: Carga Estranha'' o grupo percorreu vários estados americanos promovendo festas psicodélicas em que realizavam distribuição gratuitamente de LSD para toda e qualquer pessoa. O objetivo de Kesey era divulgar o uso do LSD e promover suas qualidades de desenvolvimento da mente humana. Nessa época a droga era pouco conhecida e ainda não tinha sido considerada ilegal pelas leis americanas. Entre os vários passageiros que fizeram parte da aventura estavam os integrantes do lendários ''Pranksteres'' e ''The Grateful Dead''.
A aventura dos ''festivos gozadores'', como a turma do ônibus era chamada, foi reconstituída pelo jornalista Tom Wolf no livro ''The Electric Kool-Aid Acid Test'' publicado no Brasil pela Editora Rocco em 1993 com o título ''O Teste do Ácido do Refresco Elétrico''. Divertido, o relato de Wolfe apresenta pirações hilárias e trágicas vivenciadas pelos devoradores de ácido. Exemplo: ''Não vamos recuar! Estamos a bordo da espaçonave, voando por meio de... Controle... e Atenção... seguindo a corrente e a gente não pode se esquivar das coisas esquisitas, por mais esquisitas que sejam''. Kesey papagueava uma tagarelice de ácido tomando 500, 1.000, 1.500 microgramas em lugar das habituais 100 a 250. Sempre fora contrário a isso. Torneios de ácido, competições para ver quem aguentava tomar mais ácido essa raça de gente acabava sempre com o miolo mole. Mas agora parecia que nenhuma experiência podia deixar de ser feita. Certa noite, Kesey tomou 1.500 microgramas e outros festivos ingeriram doses menores, deitaram no chão e começaram a transmitir a Rádio Humanóide. Punham-se a balbuciar, ecoar, ulular, todas as formas de expressão não-verbal, falando idiomas alienígenas, ao que parece. A idéia era tentar alcançar aquele estágio e aquela sintonia que permitiriam entrar em contato com seres de outros planetas, outras galáxias...''
A experiência dos ''festivos gozadores'', com o pessoal ligado 24 horas por dia, deixou vários passageiros de miolo mole, racionalmente imprestáveis. Outros passageiros conseguiram conservar seus miolos funcionando, entre ele Ken Kesey. Quando a loucura ficou pesada, mandou todo mundo para casa, encostou a ônibus no quintal de sua residência e deixou que o mato crescesse à sua volta.
Voltou a se dedicar à literatura publicando vários livros, entre eles ''Sometimes a Great Notion'', que foi transformado em filme com Paul Newman no elenco, e ''Sailor Song''. Nenhum deles teve o impacto de ''Um Estranho no Ninho'', que permaneceu como sua obra-prima. Acabou por fim deixando a literatura de lado para promover movimentos de resistência pacífica ao autoritarismo das instituições norte-americanas e campanhas ecológicas pouco ortodoxas. Com a morte de Ken Kesey, o último bastião da contracultura passa a descansar sob sete palmos de terra.


