O verdadeiro Fernando Pessoa
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terça-feira, 10 de maio de 2011
Ubiratan Brasil <br> Agência Estado 
São Paulo - O poeta português Fernando Pessoa é um mistério - escreveu cerca de 30 mil papéis, o que equivaleria a quase 60 livros de 500 páginas. Tudo praticamente trazia como tema ele mesmo ou o que lhe era próximo, como família, amigos, mitologia, ritos iniciáticos. Mesmo assim, a curta trajetória de Pessoa (nasceu em 1888 e morreu em 1935) parece ainda um enigma. Não para o escritor e advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho, que, depois de oito anos de incessante trabalho, concluiu o livro ''Fernando Pessoa - Uma Quase Autobiografia'', lançado agora pela Editora Record.
Cavalcanti Filho iniciou a pesquisa pelo ponto mais fascinante da obra de Pessoa: os heterônimos. Logo, descobriu que eram 127 e não ''apenas'' 55, como se acreditava. À medida em que se aprofundava num assunto tão vasto, ele descobriu que podia retratar o poeta a partir dos próprios escritos.
''Pessoa espalhou vestígios de sua vida na obra, que funciona como um diário'', observa. Com isso, Cavalcanti Filho segue o mesmo rumo do pesquisador americano Richard Zenith, para quem todas as ''personalidades literárias'' - sejam elas os heterônimos propriamente ditos, sejam elas as dezenas de ''os outros eus'' menos desenvolvidos - refletem o criador, sendo expressões do que realmente era ou do que queria ser, pelo menos em algum canto da alma.
Surge, portanto, uma conclusão polêmica: Pessoa era um escritor sem imaginação, pois tudo que escrevia era colado da realidade. Claro que a tese não pode ser levada ao pé da letra, pois a genialidade do poeta estava em fazer tal transposição de uma forma peculiar e única.
Ao decidir que usaria frases do próprio Pessoa (daí, o livro intitular-se uma quase autobiografia), o escritor e advogado pernambucano preferiu também escrever como ele próprio -raramente usando adjetivos e quase sempre cravando três vírgulas antes do ponto final da frase.
Apesar da fama, poucos autores escreveram sobre a vida de Fernando Pessoa, mas sim sobre sua obra. Para Cavalcanti Filho, as duas estão intimamente ligadas, mas não tanto que não possam ser estudadas separadamente. ''Octavio Paz disse, de Pessoa, que ''sua vida é sua obra, e sua obra sua vida''. Penso que os apreciadores de Pessoa acreditaram nisso. O que é correto, no tanto em que a obra excede em muito sua trajetória como ser humano. Mas é um equívoco, pois Pessoa tinha uma vida - claro, acordava, vestia, comia, bebia, tinha sonhos e angústias. Sempre quis saber quem era mesmo o homem Pessoa. Como esse livro não havia, decidi escrever eu mesmo. E sim, ele espalhou vestígios por toda sua obra, que funciona como um diário. É incrível que, passados tantos anos de sua morte, ninguém tenha percebido isso antes'', afirma.


