O VERDADEIRO CAMINHO DE SANTIAGO
Paulo Polzonoff Jr.
Especial para a Folha
Ignorando o modismo que se criou em torno do Caminho de Santiago, a fotógrafa austríaca Inge Morath revela ao público imagens do real cotidiano do local
No meio de toda a poluição mística e da apropriação turística indébita de uma rota que tem a tradição de uma fé ingênua que se perpetuou ao longo de dois mil anos de Cristianismo, o Caminho de Santiago, está a beleza sóbria das fotos de Inge Morath. As imagens podem ser vistas até o dia 3 de outubro, na sede da Fundação Cultural de Curitiba (Praça Garibaldi, 7 - Largo da Ordem). A mostra tem o apoio do Centro Cultural Brasil-Espanha e a curadoria de Luiz Arthur Montes Ribeiro.
O Caminho de Santiago, uma das três rotas de peregrinação obrigatória do Cristianismo (as outras duas são para Roma e Jerusalém), tem sido vulgarizado ao longo dos últimos anos por sua utilização exagerada como metáfora de um caminho que conduz à Shangri-lá ou ao Nirvana ou qualquer paraíso terreno que se almeje, em qualquer religião ou falta dela. É para preencher um vazio muito comum em finais de séculos que pessoas de todas as partes do mundo têm partido de St. Jean de Pied de Port, na França, num exercício físico-espiritual, até Santiago de Compostela, na Espanha, onde se encontram os restos mortais de São Tiago e seus discípulos.
Para quem não conhece, Inge Morath é um dos grandes nomes da fotografia mundial. Nascida na Áustria em 1923, aos trinta anos entrou para a prestigiosa Agência Magnum, fundada pelos lendários Henri Cartier-Bresson e Robert Capa.
Nos seus 40 anos de carreira, fotografou para as principais revistas do mundo, como a Life e Vogue, além de retratar importantes personalidades mundiais, como o presidente americano Lyndon Johnson, o pintor Juan Miró e o poeta Pablo Neruda.
Reconhecida pela excelência de suas fotos, Inge Morath já expôs nos principais museus europeus e dos Estados Unidos, como Museu de Arte Moderna de Viena, o Museum of Fine Arts de Boston e o Metropolitan Museum de Nova York. Desde 1988, Inge Morath tem realizado retrospectivas ao redor do mundo. Em 1991, o governo austríaco lhe concedeu o Grande Prêmio de Fotografia da Áustria. Atualmente Inge é naturalizada norte-americana e mora em Coneccticut, onde é casada com o ator Arthur Miller.
Mas dados e fatos falam pouco sobre a sublime arte desta mulher que já foi da China à Manhattan com sua Leica e um apurado olho para retratar o cotidiano. Na exposição sobre o Caminho de Santiago, que inclui fotos feitas durante a década de 80, Inge Morath foge do lugar-comum de dar atenção à paisagem epifânica que conduz os peregrinos até seu destino, para mostrar detalhes que passam despercebidos para a maioria dos homens e mulheres que, de cajado em riste, atravessam vales e montanhas atrás de uma evolução espiritual.
Sua desatenção ao lado puramente esotérico do Caminho confere a suas fotos um lado profano, que se atém à humanidade perene dos habitantes que vivem à margem do poder hipnótico que a rota produz nos viajantes. A paisagem é algo subalterno em suas fotos. Para Inge Morath o que importa são os detalhes, aquilo que ela chama de transmigração da alma para a fotografia.
Coisa para poucos. Ainda mais quando se sabe que Inge Morath, ao contrário dos fotógrafos modernos, tem a preocupação de fazer de cada foto uma obra única. O momento da fotografia, para Inge, tem de ser exato. Ela condena o exercício do desperdício.
O que impressiona na mostra de 35 fotos que podem ser apreciadas em Curitiba é a sobriedade com que Inge Morath retratou um lugar que sempre resvala facilmente numa religiosidade desvairada. Suas fotos em preto-e-branco procuram integrar o caminho ao cotidiano das crianças que por ali vivem alheias à fama do local, exibem a monstruosidade do auto-flagelo espiritual das pecadoras em Logroño, reduzem à exatidão cartesiana das formas geométricas das catedrais de Burgos, Léon, Lugo e, claro, Santiago de Campostela.
Exposição fotográfica Caminho de Santiago, de Inge Morath. Sede da Fundação Cultural de Curitiba (Praça Garibaldi, 7), até 3 de outubro. Visitas de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, e domingos das 9h às 14h.





