São Paulo Depois de cinco férias consecutivas nas praias do Nordeste, a analista de sistemas Lisiane Maes Volpi decidiu que este seria o ano do Caribe. Ao menos até calcular o preço do pacote, com o dólar já cotado a R$ 3,00. ''Troquei Cancun e Aruba por Maceió, Natal e Fernando de Noronha'', conta ela, calculando os gastos de viagem, incluindo os do marido, em R$ 4.500 por 20 dias de viagem. ''Por sete dias no Caribe, gastaríamos US$ 2.800 (pela atual cotação da moeda americana, R$ 10.836).''
Um raciocínio parecido levou a arquiteta Andréa Tonanni, acostumada a viajar pelo menos uma vez por ano para a Europa ou os EUA, a modificar completamente não só o roteiro, como a data de suas férias este ano. ''Esperei até agosto por uma melhora na taxa de câmbio, mas agora decidi que vou para um resort no Nordeste, ainda que seja na alta temporada'', explica. ''Por menos da metade do que gastaria no exterior, posso ir para lugares maravilhosos no Brasil.''
Os números mostram que a infra-estrutura turística brasileira melhorou muito, é verdade, e as entidades ligadas ao turismo garantem que os empresários do setor não estão dispostos a, mais uma vez, ''matar a galinha dos ovos de ouro'' cobrando preços exorbitantes dos turistas. Mas o fato é que, se o setor conseguir crescer os 20% esperados para a próxima alta temporada que começa em dezembro, a mola propulsora será mesmo a taxa de câmbio, que torna quase proibitivas as viagens para o exterior enquanto faz do País um dos destinos mais baratos do mundo, para os estrangeiros.
Dos pacotes de turismo comercializados pela CVC, operadora responsável por metade das vendas do mercado brasileiro, menos de 4% tiveram como destino outros países, nestes últimos meses. Até o ano passado, os roteiros internacionais respondiam por 30% das vendas e, nos primeiros quatro anos do Plano Real, chegaram a representar 70% do faturamento.
''Entre junho e setembro, embarcamos 5,4 mil passageiros para a Europa, quando a expectativa era de 12 mil. Para os EUA, não vale nem a pena citar'', conta o diretor-geral da CVC, Guilherme Paulus.
A reação da CVC, que vem afastando qualquer hipótese de a empresa sucumbir como a Soletur, no fim do ano passado, tem sido o investimento pesado no mercado nacional. O resultado foi o aumento de 30%, este ano, na venda de pacotes turísticos domésticos. ''Perdemos Cancun e Miami, mas ganhamos destinos como a Costa do Sauípe e o Beach Park de Fortaleza'', diz.
Este ano, a operadora irá oferecer 44 mil assentos por mês em vôos fretados, um aumento de 20% em relação à oferta do ano passado. O número de quartos reservados em hotéis por todo o País cresceu em igual proporção. O objetivo é transportar 500 mil passageiros este ano.
As boas expectativas da CVC são compartilhadas pelo ministro do Esporte e Turismo, Caio Carvalho, que comemora o fato de os hotéis nordestinos estarem ''praticamente lotados até o carnaval''. Isto num cenário de ampliação da infra-estrutura do segmento. O Rio Grande do Norte, cita o ministro, evoluiu de uma oferta de 12 mil leitos, em 1995, para os atuais 26,5 mil, fora outros 4 mil em construção. ''Até mesmo Santa Catarina deverá ter uma boa surpresa, pois temos notícias de uma pequena mas totalmente inesperada volta de turistas argentinos de classe alta'', conta Carvalho.
Mas as melhores notícias deverão vir da Europa, segundo o ministro. ''Há um crescimento expressivo nos vôos charter da Europa para o Nordeste, com vôos semanais da Escandinávia, de Lisboa e Madri, por exemplo, graças sobretudo à melhoria dos aeroportos das capitais'', conta.
Carvalho aposta, inclusive, numa redução nos preços das viagens tese defendida também por Guilherme Paulus, da CVC. ''O setor aprendeu a lição, finalmente, e vai tentar lucrar mais com um número maior de turistas'', diz o ministro.

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