O velho, o novo e a dúvida
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Para descartar falsas expectativas, é bom que se diga logo de saída que Dúvida, em lançamento hoje na cidade (confira programação na página 2), não trata exatamente da controversa e muito alardeada relação da Igreja Católica com a pedofilia, ainda que seja um dos temas que assombram suas imagens com persistência.
Na verdade, trata-se aqui de esmiuçar a dúvida mesmo, a difamação, a calúnia, a intransigência e tudo o que coloca em perigo a reputação das pessoas. O argumento aborda o tormentoso embate entre uma freira e um padre. Ela é diretora de colégio católico no Bronx. Aferrada às tradições, autoritária, intolerante, atua como sentinela da fé, olha os demais seres humanos do alto de sua inquebrantável convicção. Por razões óbvias que inclusive passam ao largo do maniqueísmo mais elementar, ela é a vilã da história.
Ele, o sacerdote afável, compreensivo, orador eloquente e persuasivo, conhece as debilidades das pessoas e por isso prefere estar sempre próximo das necessidades dos fiéis, crianças incluídas. Esse comportamento pastoral atrai contra ele o comadrio maledicente, e seus sermões sempre convidam a audiência a refletir sobre a dúvida, as intrigas e os mexericos. Por razões óbvias igualmente óbvias, assume o papel de herói.
Através deles, o filme também informa sobre as circunstâncias em que transcorre essa batalha surda entre a freira fanática e o capelão progressista. Ela, vigilante da disciplina enquanto percorre os bancos da igreja para castigar os distraídos e os que cabeceiam durante a missa. Ele, com sua palavra clara, seu tom fraterno e seus exemplos acessíveis tomados da vida cotidiana.
O período em que se passa a narrativa? Idos de 1964, tempo marcado nos EUA (e no mundo) pela posição aturdida e amedrontada da Igreja Católica apanhada entre o velho e o novo à luz do Concílio Vaticano II, pela perplexidade irremediável diante do cadáver de John Kennedy, pela urgência da ofensiva irrefreável dos direitos civis são detalhes entregues ao espectador com habilidosa discrição. Não se deve estranhar, portanto, que haja no colégio somente um aluno negro, vitimado pelo preconceito de seus iguais e consequentemente protegido pelo padre, o que presumivelmente alimentará as suspeitas da freira.
Esse confronto entre o autoritarismo e os ideais de abertura é o que de fato interessa nessa proposta atipicamente intensa e enxuta, dirigida por John Patrick Stanley a partir de peça teatral também escrita por ele. O filme é claramente uma provocação feita à grande indústria hollywoodiana, quando utiliza duas de suas maiores estrelas colocadas a serviço de um conflito de ideias de inegável atualidade. Não por acaso, os quatro principais intérpretes foram nominados ao Oscar em suas respectivas categorias: Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman em trabalho deslumbrante, coadjuvados pela minuciosa fragilidade de Amy Adams e pelo desolador pragmatismo de Viola Davis como a mãe do garoto negro.


