DivulgaçãoJean Paul Belmondo é o protagonista do filme de Lelouch: adaptação livre do calvário de Jean Valjean, personagem exuberante de Victor Hugo

Trinta anos e duas dúzias de filmes depois do irreparável sucesso mundial de ‘‘Um Homem, Uma Mulher’’, Claude Lelouch uma vez mais bate regularmente o ponto, agora com este seu ‘‘Os Miseráveis’’(veja programação de cinema na página 3), adaptação livre do clássico de tendências sociais de Victor Hugo, publicado em 1862. Desde 1981, quando novamente dourou a pílula e engordou a conta bancária com o telenovelesco e edulcorado ‘‘Retratos da Vida’’, Lelouch estava à espreita para uma nova empreitada de ambições desmedidas.
A fórmula esperta de ‘‘Les Uns et les Autres’’, com suas intermináveis sagas familiares em meio a dor, ranger de dentes, lírica pífia e engodos formais diversos (malabarismos fotográficos e montagem rebarbativa), tudo disposto em narrativa circular estrategicamente embalada pela construção em crescendo - redundante do ‘‘Bolero’’ de Ravel - tudo, afinal, poderia quem sabe passar pela usina de reciclagem de sua produtora, a tradicional Les Films 13.
‘‘Os Miseráveis’’ bem que tenta chegar a bom termo depois de vagar a esmo durante duas horas e 50 minutos. Mas se ‘‘Retratos...’’, apesar dos maneirismos, tinha um certo sabor de novidade, o que Lelouch pretende como novo em ‘‘Os Miseráveis’’ chega a desconcertar.



Cineasta viajou
um roteiro frágil
que embaralha
dados e sonega
informações


Nem bons nem maus Apoiado logo na abertura por um crédito maroto que dá a ele plenos poderes de co-autoria do romance de Hugo, o cineasta viajou sem limites num roteiro que camufla sua fragilidade embaralhando dados e sonegando informações. A intenção que se percebe até que era fascinante: escapar das amarras que uma adaptação de tal porte sempre impõe. Mas afinal não se tem nem um argumento original com ‘‘licenças poéticas’’ em cima da fonte literária ilustre, nem uma retomada fiel do calvário de Jean Valjean, personagem exuberante na ótica do escritor e que sempre rendeu grandes momentos na tela - Harry Baur em 33, Gino Cervi em 48, Jean Gabin em 58 e Lino Ventura.
Faltam ao filme alguns elementos vitais, como uma direção artística menos burocrática; uma montagem (do próprio Lelouch ) muito mais enxuta ; um elenco de apoio com mais personalidade; e se o negócio é mercantilizar imediatamente o produto, onde se meteu aqui a trilha sonora que em ‘‘Retratos...’’ tinha uma função orgânica ?
Os filmes de Claude Lelouch não trabalham muito com o cérebro. A preferência é sempre pelo baú de sentimentos mais rasos da platéia. As emoções estão sempre ali, a postos, com a função de preencher os vácuos. Mas como não é aconselhável preencher vazios - e são muitos, psicológicos e dramáticos - somente com emoções, outra solução a que o diretor se dedica pessoalmente com muito afinco é disparar sua câmera e fotografar infindáveis quilômetros de celulóide. Depois, quando é preciso sentar na moviola para proceder a montagem, outro drama com dimensões existenciais para Lelouch : o que cortar ? O resultado é visível tão logo o filme chega às salas em lançamento.
Caminhos difíceis Há, porém , uma questão subjacente na obra (é uma obra sim, por que não ?) de Claude Lelouch. E que merece que se debruce mais atentamente sobre seus filmes. Não se trata de alguma coisa que surja premeditada nos argumentos e roteiros - e já se disse aqui que roteiros não são o seu forte. Os personagens lelouchianos estão sempre a percorrer caminhos difíceis, tortuosos, e são sempre movidos por uma espécie de destino. Ou pela sorte ou pelo azar ou pela coincidência. Ou pelo tempo cronológico, que regula encontros e desencontros que sempre mudam a vida das pesoas.
O movimento circular, o redemoinho, a roda da fortuna que ficou mais evidente em ‘‘Retratos da Vida’’ e que agora se repete em ‘‘Os Miseráveis’’ é também perceptível em seus filmes menores em tamanho e sem aspirações a épico. Mas é nas tramas banais que o tema do sortilégio aparece de maneira mais simpática e menos imponente, algo incorporado ao cotidiano das pessoas e capaz de transformar o comportamento. Um bom começo para uma reaproximação positiva da filmografia do diretor é ‘‘Tem Dias de Lua Cheia’’, com circulação restrita apenas em locadoras.

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