O vampiro perde uma de suas referências
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sábado, 21 de setembro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba O vampiro de Curitiba perdeu a habitual mesa reservada na confeitaria mais tradicional da cidade. Desde que a Galeria Schaffer fechou, atendendo à medida judicial, o ''vampiro'' Dalton Trevisan, assim como milhares de frequentadores assíduos da confeitaria Schaffer, ficou órfão.Inaugurado em 1944, na Rua XV de Novembro, o espaço reunia intelectuais, jornalistas, escritores e estudantes que mais do que os quitutes apetitosos desfrutavam de um ambiente carregado de história e personagens peculiares.
Uma briga judicial iniciada há cinco anos, no entanto, cerrou para sempre as portas da confeitaria, levando consigo parte da história da cidade. De um lado o proprietário Ivo Bernado Heisler, que moveu uma ação pedindo a reintegração de posse do imóvel. Do outro, a Urbs, órgão municipal que administra o transporte coletivo e alguns equipamentos urbanos de Curitiba. Heisler havia locado o imóvel para a prefeitura na década de 80, mas desde 1997 não recebia o valor dos aluguéis. A prefeitura se redime, informando que a esponsabilidade é de quem sublocava o prédio.
Na Galeria Schaffer funcionava, além da confeitaria, dois bares, um restaurante e um café. Até os anos 90, também funcionava o saudoso Cine Groff, mantido e fechado pela Fundação Cultural de Curitiba. O pequeno e aconchegante cinema exibia filmes bem distantes do circuito comercial e foi responsável por transformar a galeria num importante espaço cultural. Deixou saudades e causou indignação dos artistas e cinéfilos locais, mas nada comparado ao que acontece agora com o fechamento de toda a galeria.
Na semana passada, o barulho das portas fechando chegou até a Câmara Municipal, mas tudo que foi feito foi uma espécie de ''lamento oficial'', com alguns vereadores manifestando publicamente a sua indignação. Eles lembraram que a confeitaria era considerada um símbolo dos valores culturais da cidade. Julieta Reis (PFL) chegou a sugerir que a câmara adotasse ações contrárias ao fechamento de estabelecimentos como a Schaffer, promovendo um inventário sobre o interesse cultural dos espaços para a cidade.
Por enquanto, não há nenhuma medida nesse sentido. O espaço é tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado, mas quem decide pelo que vai funcionar nele é o proprietário. A filha do dono do imóvel, Sandra Michelotto, disse que por enquanto a família vai esperar a decisão judicial para tentar recuperar o prejuízo e só depois deve pensar no que pode ser feito com o prédio.
A Schafffer tinha esse nome em alusão à Leiteria Schaffer, de Francisco Schaffer que, em 1918, trouxe para cidade o modelo alemão de leite engarrafado. Inicialmente o espaço foi alugado para a família Esser, que inaugurou a confeitaria em 1944, já oferecendo a coalhada caseira que se transformou numa das principais pedidas do local, ao lado do suco de maracujá batido com sorvete de creme.
O prédio passou por dois incêndios, o último em 1978, que o destruiu completamente. Sua reconstrução aconteceu com recursos da campanha popular ''Por Amor à Schaffer''. Em 1981 a restauração foi concluída e desde então a Confeitaria Schaffer era administrada por Ronaldo Fonseca Hortmann, que promete recorrer da decisão judicial. O mandado de despejo foi concedido pelo juiz da 10 Vara Cível de Curitiba, Guilherme Luiz Gomes, no último dia 30, quando a confeitaria teve as suas portas fechadas.
Agora, comer uma coalhoada da Schaffer é um ato tão saudoso para os curitibanos quanto comprar um eletrodoméstico no crediário da Hermes Macedo e tomar um café no Senadinho.


