O valor das obras raras
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Caroline Vicentini<br> Reportagem Local 
''Um Século de Ford'', de Russ Banhan, ''Louco por Você'', o primeiro LP de Roberto Carlos, ''A Igreja nos Quatro Séculos de São Paulo'', ''Código Philippino ou Ordenações e Leis do Reino de Portugal'', de Candido Mendes de Almeida, a primeira edição de ''Os Sertões'', de Euclides da Cunha, gibis da década de 50 do Tarzan. O que estas obras têm em comum? A raridade, qualidade de difícil definição em se tratando de bens culturais, mas que os valoriza, determinando valores estratosféricos às obras e fazendo a alegria dos colecionadores. Segundo a doutora Ana Virgínia Pinheiro, autora do livro ''Que É Livro Raro?'', trata-se de uma pergunta de difícil resposta pois cada livro é um universo restrito de manifestações culturais - originais e acrescentadas; os argumentos que definem a raridade de um livro são frágeis, baseados no mito da antiguidade (nem todo livro antigo é raro).
Segundo proprietários de sebos consultados pela reportagem, são diversos os elementos qualificadores de uma obra rara, pois envolvem aspectos históricos, culturais, bibliológicos e singularidades do exemplar. Primeiras edições ou esgotadas, publicações em pequenas tiragens de autores consagrados, livro difícil de ser encontrado devido a sua antiguidade, ou por tratar-se de exemplar manuscrito, presença de ilustrações produzidas artesanalmente, autógrafo ou dedicatória, marcas de propriedade são algumas das características definidoras de uma obra rara.
Proprietário do Sebo Brasil, Valdomiro Barbosa de Sousa, destaca o livro ''Noel Rosa - Biografia'', de João Máximo e Carlos Didier, como a raridade no acervo de 7 mil livros. ''Esta edição comemorativa do 80º aniversário de nascimento de Noel Rosa saiu com uma tiragem de apenas 1.500 exemplares'', justifica. Sousa oferece o livro por R$ 200. Já no setor de vinis, ressaltam-se ''Zico e Zeca - vol.3'' (R$ 150) e ''Tonico e Tinoco na RCA Victor'', um disco de 1970 (R$ 80). Sousa aponta a época de gravação, a existência de selo original e a tiragem limitada como os principais critérios de avaliação de raridade de um LP.
No sebo Multimania, uma etiqueta escrita ''raridade'' identifica o livro ''A Igreja nos Quatro Séculos de São Paulo'', de 1958. Em capa dura, o livro vem com uma nota de compra no valor de cem mil cruzeiros. ''Este livro saiu com poucas edições; não é de fácil acesso'', argumenta. Segundo a proprietária, Elaine Cristina Petrachin Fernandes, a obra, comprada há pouco mais de um mês de uma professora de História, está sendo vendida por R$ 180. ''Já teve gente olhando, mas espero um colecionador aparecer para pagar o valor pedido'', revela. Além dos critérios já mencionados, Elaine analisa o estado de conservação do livro e acessa sites especializados para saber a quanto a obra está sendo negociada. Jonas Barbosa Leite Neto, do sebo Ousados, em Curitiba, utiliza o cadastro da Biblioteca Nacional como referência de raridade bibliográfica. ''Muitas pessoas querem vender um livro como raro pelo seu valor sentimental'', assinala. Dentre as raridades no acervo de 11 mil livros destacam-se ''Um Século de Ford'', de Russ Banhan, e uma bíblia em polonês que Neto ''gostaria de vender por pelo menos R$ 1 mil''.
Dois exemplares com dedicatória do escritor paranaense Dalton Trevisan (vendidos por R$ 80 cada), ''Código Philippino ou Ordenação e Leis do Reino de Portugal'', de Candido Mendes de Almeida (1870, R$ 1.500, acompanhado de um auxiliar jurídico), e ''Tratado de Direito Civil'', de Henri Di Page (15 volumes - R$ 12 mil), ''In Memorian: Ermelino Matarazzo'' (R$ 1.500) são algumas das raridades encontradas no Sebo Capricho. Segundo um dos proprietários, Marcelo Basques, o ''Código Philippino...'' é raro por tratar-se do primeiro código de Direito de Portugal. ''Já o 'Tratado de Direito Civil' é uma obra singular por ser estrangeira e com edição esgotada'', justifica Basques. No sebo que a família abriu há poucos meses em Curitiba encontra-se ''In Memorian: Ermelino Matarazzo'', livro publicado em decorrência da morte do empresário em um acidente automobilístico no ano de 1920. De acordo com Basques, o livro, em capa de couro, com auto-relevo e páginas amareladas provocadas pela acidificação do papel, teve uma tiragem de apenas 500 exemplares e está fora de comércio. ''Consegui este livro porque o marido da cliente era advogado da família'', conta.


