ReproduçãoÔnibus em que Chris McCandless viajava foi encontrado no Alaska: ele morreu de inanição dentro de seu ‘‘abrigo’’Algumas história unem aventura e tragédia de maneira exemplar. A história do jovem norte-americano Chris McCandless é uma delas.
Nascido numa família rica, aprendeu alpinismo com o próprio pai ainda na infância. Assíduo leitor de Jack London, Henry David Thoreau e Leon Tolstoi, durante as férias escolares colocava uma mochila nas costas e viajava sozinho para lugares onde a natureza pulsava em estado selvagem.
Depois de concluir a universidade com notas invejáveis, encheu o carro com seus pertences, basicamente roupas e livros, e colocou o pé na estrada sem destino aparente. Chegou ao deserto da Califórnia, abandonou o carro, queimou todo dinheiro que possuía, trocou de nome e nunca mais sua família teve notícias suas. Adotou o nome de Alex Supertramp. Passou a viver como andarilho, viajando sempre de carona pelas estrada, em automóveis ou trens de carga. Passou a fazer parte daqueles grupos que vivem à margem da ordem americana. Parava alguns dias em alguma cidade, conseguia algum trabalho temporário e caía novamente na estrada explorando os lugares mais isolados que a natureza pudesse oferecer.
Seus pais colocaram a polícia e detetives particulares para localizá-lo sem resultado. Chris havia sumido do mapa com o cuidado de não deixar nenhuma pista. O enigma durou quase três anos até um corpo em decomposição ser encontrado em 1992 na gelada região do monte McKinley, desabitado território do Alaska. Caçadores descobriram o corpo dentro de um ônibus abandonado que servia de abrigo para aventureiros em tráfego. Ao seu lado havia um diário, vários rolos de filmes batidos e livros de literatura e botânica.
Através do diário e da revelação das fotos, vários auto-retratos, a polícia conseguiu reconhecer o corpo e contatar a família. Chris havia morrido de inanição depois de enfrentar o desafio de viver com as próprias mãos numa região selvagem e desabitada, longe do convívio humano, longe das condições e comodidades que a civilização pode oferecer. Esta era sua aventura, viver em total liberdade, com um certo ascetismo, no seio da natureza.
A história de Chris tornou-se conhecida, e famosa, através de uma reportagem realizado pelo jornalista Jon Krakauer publicada na revista norte-americana ‘‘Outsider’’ em 1993. Especialista em aventuras trágicas - é de sua autoria ‘‘No Ar Rarefeito’’ em que narra o fracasso de um grupo de alpinistas no Monte Everest - Krakauer transformou a história do jovem aventureiro em livro, ‘‘Na Natureza Selvagem’’, que acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras.
Baseado no diário de Chris, em depoimentos e entrevistas, Krakauser reconstituiu os caminhos percorridos por Chris, ou Alex, e a filosofia de vida em suas andanças pelas margens da América. A viagem para o Alaska seria o ápice de sua busca. Colocou os pés na região levando roupas impróprias para o frio, um rifle de baixo calibre, três quilos de arroz e três quilos de livros. Nada mais. Deixou registrado na parede interna do ônibus que lhe serviu de abrigo em seus dias finais as seguintes palavras: ‘‘Dois anos de caminhada pela terra. Sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros. Liberdade definitiva. Um extremista. Um viajante estético cujo lar é a estrada. Fugido de Atlanta, não retornarás, porque o Oeste é melhor. E agora depois de dois anos errantes chega à última e maior aventura. A batalha final para matar o seu falso interior e concluir vitoriosamente a revolução espiritual. Dez dias e noites de trens de carga e pegando carona trazem-no para o grande branco do Norte. Para não mais ser envenenado pela civilização, ele foge e caminha sozinho sobre a terra para perder-se na natureza.’’
Conseguiu sobreviver durante três meses e tudo indica que ficou doente por ter comido alguma planta imprópria. Debilitado, foi incapaz de correr atrás de alimento, padecendo lentamente em jejum. As anotações de seu diário trazem lucidez e não delírios de um lunático: ‘‘Viver deliberadamente: atenção consciente ao básico da vida e uma atenção constante ao meio ambiente imediato e o que lhe diz respeito, exemplo - um emprego, uma tarefa, um livro; tudo exigindo concentração eficiente. (Circunstância não tem valor. É como a gente se relaciona com a situação que tem valor. Todo significado verdadeiro reside na relação pessoal a um fenômeno, o que ele significa para você.)’’.
Paralelamente a história de Chris McCandless, em ‘‘Na Natureza Selvagem’’ Jon Krakauer vai relatando a história de outros aventueiros solitários que enfrentaram situações limites para cumprir seus desafios. Histórias que invariavelmente terminaram em tragédias. Chris, como outros, buscava algo, um novo eixo para a vida, um eixo que necessariamente não estivesse fundamentado apenas nas relações humanas - relações estas, que segundo seus relatos, não mais acreditava - mas na relação com a natureza: ‘‘Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principalmente das relações humanas. Deus a distribui em toda a nossa volta. Está em tudo e em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de viver não-convencional’’.

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