Márcio Maio
TV Press
A vingança é tema mais que recorrente na literatura universal. Desde a mais exemplar, "O Conde de Monte Cristo", de Alexandre Dumas, passando por "Os Miseráveis", de Victor Hugo, e chegando à mais cultuada tragédia de William Shakespeare, "Hamlet". Na teledramaturgia, cujo texto na maioria das vezes busca inspiração em fontes literárias, não é diferente. E sucessos recentes como a série americana "Revenge" e a novela "Avenida Brasil", escrita por João Emanuel Carneiro e exibida pela Globo no ano passado, mostram que um bom vingador é garantia de, no mínimo, muita ação nas tramas centrais.
Nem mesmo o exagero que se vê atualmente nessa vertente parece tirar de autores e dos próprios atores a vontade de explorar tais histórias. "A vingança sempre está, de alguma forma, nos folhetins. É instigante demais para se deixar de lado. No meu caso, o que acho inusitado é o fato de se tratar de um plano elaborado por uma vilã e colocado em prática contra outro vilão", aponta Nathalia Dill, que vive a ardilosa Sílvia de "Joia Rara".
Na novela das seis da Globo, Sílvia teve o pai traído pelo sócio Ernest, papel de José de Abreu. Sem conseguir se reerguer, morreu amargurado pelo fracasso. Motivação que, de certa forma, se parece com a de Nina, vivida por Débora Falabella, para infernizar a vida da dissimulada Carminha, de "Avenida Brasil". Ou de Laura, a "cachorra" interpretada por Cláudia Abreu em "Celebridade", que queria tomar tudo da rival Maria Clara Diniz, de Malu Mader, que tinha enriquecido às custas de uma música feita, na verdade, para a mãe da vilã. Mas, ao ter sua vida literalmente roubada pela rival, Maria Clara iniciava, então, sua própria vingança contra ela. "Os valores se inverteram. Vingança não é algo saudável e me preocupei muito quando o jogo virou. Mas não há como negar que o telespectador vibra com essas reações. A audiência mostra. Assim como nós tivemos nossa cena de surra, muitas novelas investem nisso. Já virou clichê", opina Malu.
De fato, colocar um personagem de caráter exemplar arquitetando um plano de vingança implica em fazê-lo se desvirtuar do caminho mais óbvio do herói. E abrir portas para que, com a desculpa do desejo de justiça, tenha atitudes questionáveis. Fugir de arquétipos, então, se torna uma boa saída para trabalhar de maneira mais livre esses papéis. Em "A Favorita", por exemplo, Flora e Donatela, de Patrícia Pillar e Cláudia Raia, buscavam, de alguma forma, se vingar uma da outra. Mas só a partir do segundo mês de novela ficou claro quem era a assassina e quem tinha sido vítima no passado.
Lauro César Muniz, que chegou a dar o nome provisório de "Vendetta" – vingança, em italiano – a "Poder Paralelo", novela que escreveu na Record, há quatro anos, também preferiu deixar no ar a dúvida sobre seu principal personagem. Tony, de Gabriel Braga Nunes, vingava a morte de sua família. Mas não ficava claro se ele era um mafioso ou um homem da lei infiltrado no crime organizado. "Quanto menos esquemático for um personagem, mais rico e ambivalente ele será, oscilando entre bandido ou herói", defende Lauro.
Já Marcílio Moraes preferiu experimentar tanto uma vingança "do bem" quanto uma "do mal" quando escreveu a série "A Lei e O Crime", atualmente em reprise pela Record. Na trama principal, contava a história de duas vinganças. Uma, do policial corrupto Romero, de Caio Junqueira, contra o traficante Nando, de Ângelo Paes Leme. E a outra, da ricaça Catarina, advogada vivida por Francisca Queiroz que, ao ver seu pai assassinado em um arrastão, decide se tornar delegada só para prender o bandido que o matou. "Ao optar por uma mocinha vingadora, escapei do risco de deixá-la chata", acredita Marcílio, que explica o que o fez eleger uma mulher nessa posição. "Minha intenção foi criar uma personagem radicalmente diferente do Nando. Então, seu principal antagonista não seria um homem, mas uma mulher frágil, rica, sofisticada e generosa, tudo que ele não era", conta.
O que os autores querem com tramas de vingança, na verdade, é estimular a torcida do público. Seja para que o "justiceiro" consiga o que quer ou, em outros casos, para que se redima e desista do plano. "É uma temática que mexe com sentimentos ocultos que todos nós temos e, muitas vezes, não assumimos. A história funciona como uma catarse para o espectador", avalia Ricardo Linhares, que escreveu novelas como "Tieta", "Fera Radical", "O Dono do Mundo", "Fera Ferida", "Celebridade" e "Insensato Coração", todas com tramas de vingança entre os núcleos principais.
E em tempos de tanta adoração aos vilões da tevê, criar mocinhos vingativos funciona também para estimular atores a fugir de uma linha mais retilínea em suas interpretações. "O texto de um personagem é o que determina se ele é bom ou ruim. E, ultimamente, os vilões têm sido mais bem escritos", frisa Malu Mader, que viveu protagonistas vingativas em "Fera Radical" e "O Dono do Mundo".

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