O útero e o mar
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de novembro de 2017
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

Todas as mulheres são parecidas em suas diferenças ou todas as mulheres são diferentes em suas semelhanças?
Em seu novo romance, "Começa em Mar", a escritora mineira Vanessa Maranha explode essa questão em múltiplas facetas. Invade a psique com as ferramentas da linguagem para revelar a grande batalha da mulher diante da impossibilidade de ser aquilo que deseja ser.
"Começa em Mar" narra a história de várias mulheres que trafegam por um hotel da ilha de Róvia, uma ilha imaginária situada no litoral da Bahia. Hotel fundado por um casal de imigrantes, ele português e ela espanhola. Com os anos, o marido vai reduzindo seu tamanho até ficar da dimensão de uma pulga. A esposa, igualmente, vai se tornando mais e mais volátil até virar vento.
Quando a única filha do casal, Alice, assume o hotel, uma coleção de mulheres começa a desfilar seus dramas, desejos e ensejos em seus corredores. Na narrativa desenvolvida por Vanessa Maranha, o simbólico se confunde com a realidade e a psique se mistura com o corpo.
"Começa em Mar" traz uma polifonia de vozes femininas em que cada voz cultiva, com afetividade, sua singularidade. A seguir, a autora fala sobre o livro e sobre a linguagem desenvolvida.
"Começa em Mar" é um romance sobre mulheres. Mulheres que uma hora ou outra entram em comunhão com a loucura. Por quê?
Porque a loucura nos acerca o tempo todo. Se somos neuróticos, entramos e saímos dela em vários momentos e situações do dia. Agora, se psicotizamos, se rompemos pra valer com a realidade, vira morada, refúgio. De todo modo, a loucura, os limites entre lucidez e insanidade, suas miradas filosóficas, me fascinam enquanto tema e são recorrentes em todos os meus livros.
Algumas personagens do romance viram vento, se transformam em peixe, entram em espelhos. Sua literatura flerta com o realismo mágico?
Sim. E também com o Expressionismo e com o Surrealismo, como proposta estética mesmo. Distorcer, edulcorar, jogar tintas fortes sobre um suposto real. Existem coisas que não podem ser contadas pela régua do habitual comum, pela linearidade normal. Penso kafkianamente que a boa literatura não seja exatamente calmante. Ela precisa incomodar.
Existem dois retratos de inadequação em "Começa em Mar". Inicialmente a do imigrante europeu que aporta no Brasil. Posteriormente a inadequação da filha do imigrante que retorna à Europa. Você acha que essa inadequação é algo universal ou brasileiro?
Tentei pensar no exilado e no sentimento de quem está em situação exílio ou de auto-exílio que é universal. O estranhamento permeia todo o livro, diante de si, do outro, do país, na ideia do estranho familiar, de que nunca abarcamos o conhecimento total do que quer ou de quem quer que seja. Sentir-se estrangeiro onde quer que se esteja, a depender da constituição psíquica, da transgeracionalidade, do caldo de cultura, a ideia era falar disso também.
Em "Começa em Mar" você desenvolve uma linguagem que explora as ricas possibilidades da língua. Você considera que a linguagem é um dos principais elementos da literatura?
Claro. Não chego ao extremo de desejar uma literatura que se sustente unicamente pelo estilo, como queria Flaubert, mas a linguagem é o liame, é a música, é o ritmo, é a respiração cadenciada de um texto literário. Nesse livro eu deliberadamente fiz pesquisa de linguagem e tentei esboçar uma espécie de dialeto emocional em termos de sintaxe situado num ponto cego entre o português lisboeta, o espanhol andaluz e o português da Bahia; porque ninguém fala exatamente daquela forma, mas a ideia era criar, via linguagem, um tom de epopeia e lirismo, ao mesmo tempo, alguma dramaticidade forte.
A protagonista do romance apesar de viver numa turbulência de infelicidades, no final da vida abraça todos à sua volta. Você acha que a redenção simboliza a compreensão da vida?
Sim. Penso na circularidade da vida. A minha prosa, sobretudo pelo que me trazem os leitores os leitores me auxiliam a compreender o que eu faço , tem esse traço de circularidade, de começos que estão no fundo do fim e vice-versa, finais que são bases de iniciações. Em "Começa em Mar", o final é um laço, um atar-se, uma significação para todo o percurso tortuoso. Não diria que seja algo da redenção, mas o amadurecimento da personagem com um toque de romance de formação, no reconhecimento de que todo o seu caminho se dava naquele sentido de abraço. Era aquilo, ou morrer psiquicamente.
Serviço:
"Começa em Mar"
Autora Vanessa Maranha
Editora Penalux
Páginas 190
Quanto R$ 40



