O urso panda encontra o acordo ortográfico
As olheiras deixadas pelas noites em claro fizeram com que Adriana Calcanhotto se comparasse a um ''urso panda disfarçado de cantora'', como escreveu em diversas passagens de ''Saga Lusa''.
As sensações provadas naquele estado deixaram sua audição mais sensível, e provavelmente isto gerou tantas ''sacadas'' com a língua portuguesa falada por sua equipe de brasileiros e pelos demais portugueses ao seu redor. ''Todos falavam português, e praticamente ninguém se comunicava. Cada um de nós achava que estava sendo compreendido mas não estava'', conclui.
Em meio ao português brasileiro, que está habituada a escrever e falar (incluindo palavras típicas do ''carioquês'' como ''Demorô'' e ''caído''), a cantora faz inserções de termos falados pelos patrícios, como ''ficou giro'', ''gajo'', ''ó pá'' e até reproduções escritas da fala (como em ''pssoas''). Ao final do livro há um dicionário de palavras encontradas durante a leitura, sem distinção de origem.
Fica mais curioso ainda saber que Adriana estava preocupada com o acordo ortográfico da língua portuguesa, citado algumas vezes durante o livro. ''Eu estava pensando muito sobre o acordo logo antes de embarcar para Portugal, estava lendo a respeito e pretendia conversar com meus amigos portugueses, escritores e poetas, por isso as citações em relação ao acordo no livro, essas ideias estavam frescas na minha mente'', relatou à FOLHA.
Na página 65, ela já começava a ficar autorreferente em relação à obra, e descobre que está escrevendo um livro. Na página 112 ela decide comprar um dicionário conforme o novo acordo. Apesar da vontade, Adriana não publicou o livro dentro das novas normas. ''Como todo mundo viu, a partir de um ponto não consegui conversar mais sobre coisa alguma, mas ainda pensava sobre a língua, as duas línguas portuguesas, suas intersecções e sobre o acordo, claro. Gostaria de ter publicado já pelo acordo mas nem no Brasil nem em Portugal consegui convencer meus editores'', revela.





