O universo pop das cores e da vida
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de abril de 2002
Zeca Corrêa Leite Equipe da Folha 
Obras de Antonio Claudio Carvalho, que abre duas exposições hoje em Curitiba, reverenciam grandes nomes das artes, de Oswald de Andrade a Silvia Plath
Duas exposições de um mesmo artista poderão ser vistas pelo público a partir de hoje, em Curitiba, em dois endereços: no Memorial de Curitiba e na Galeria Arte Singullar. Ao todo são 44 quadros de grandes dimensões, numa linguagem moderna, em estilo pop. No Memorial o título da mostra de 31 obras, traz o nome desse artista um dos mais importantes das artes plásticas do País Antonio Claudio Carvalho, enquanto na galeria da Rua Saldanha Marinho, uma das 13 telas enorme, de dez metros quadrados batiza o conjunto: História da Arte e Outras Telas.
Os endereços são distintos, mas a produção é uma só, sem descontinuidade. O meu trabalho se complementa, porque é sempre uma longa história que está sendo narrada. Se o espaço do Memorial fosse maior, todos os quadros que estão na Arte Singullar poderiam fazer parte da mesma exposição. Ou vice-versa, diz o carioca, que mantém ateliê em Londres. Em A História da Arte, Carvalho homenageia todos aqueles grandes nomes reverenciados por ele: Começa em Pablo Picasso e acaba em Ruiz, passando por outros. E, com a licença deles, botei meu nome no meio da relação, conta divertido.
Com uma linguagem pop, irreverente, por vezes e sutilmente meditativa, sob a aura contemporânea, Antonio Claudio Carvalho usa e abusa das cores, dialoga consigo e com o público e chega até mesmo a retratar o encontro de artistas suicidas, em Conversa sobre Poesia, Arte e Suicídio, que poderá ser visto no Memorial. Na tela os poetas Maiakowski, Silvia Plat, Ana Cristina Cesar e o pintor Mark Rothko judeu e russo naturalizado norte-americano se olham aos pares, cada um falando o nome do outro. É como se dissessem: Você também aqui? Ou seja, eles se encontraram em algum lugar, explica Carvalho.
As 34 obras expostas foram escolhidas de sua produção mais recente, ou seja, dos dois últimos anos. Encerrado em seu ateliê londrino, o pintor trabalhou de forma intensa e alucinadamente, uma coisa compulsiva até. Mas esse é seu ritmo, essa é a forma como encara tudo aquilo que está vindo à tona e se transforma em frases soltas junto às imagens. Escreve em inglês, francês, português. As pessoas se identificam com esse tipo de comunicação, mesmo quando não compreendem o idioma.
Nas amplas telas estende-se um universo repleto de fantasmas que me acompanham, como prefere Carvalho. Ou melhor, o universo que a gente vive, e que consigo captar e tento passar aos outros. Mesmo filtrado pelo prisma da sensibilidade, ainda assim não se pode dizer que este seja um plano mágico. Acho que transito por um universo real e cruel, que é o nosso. Se na tela sai com um pouco de magia, é porque o trabalho saiu bem feito.
Como suas pinturas trazem o Brasil, os poetas, vivências e cores, em meio a tantos outros elementos, então o imaginário e o real fundem-se numa certa harmonia. Em Mapa Múndi, por exemplo, cada país tem o nome de um poeta. O globo chama-se Charles Mingus, explícita homenagem ao contrabaixista norte-americano que Carvalho nunca conseguiu pintar. Tem-se aí a música e a poesia, mas no trabalho Anjo o artista expurgou o pesadelo que nele se instalou, naquele fatídico 11 de setembro de 2001, quando viu um corpo no espaço despencando de encontro à morte, no World Trade Center. Esse anjo, atordoado e anônimo, faz parte do mesmo universo que agrega poetas, músicos, pintores sublinha o autor.
Pesos e levezas diluem-se na profusão de cores, que sinaliza uma constante esperança a mover as engrenagens do mundo. Não houvesse essa certeza pelo amanhã e as pessoas não estariam trabalhando como trabalham. Antonio Claudio Carvalho observa que faz de sua obra uma reverência às pessoas em geral, não somente aos personagens ali estampados. À vida, resume. Envolvido com a arte em si, e toda extensão que ela propicia, já pensando na individual que realiza em agosto em Edimburgo, entre outros compromissos, o pintor não está nem aí para as fases pelas quais ocasionalmente esteja passando. Quem deve colocar divisão naquilo que a gente faz são os críticos. Para mim o que importa é a imersão: trabalhar, trabalhar, trabalhar. Produzir, mostrar. Esse é o ciclo do artista.
Antonio Claudio Carvalho expõe 31 obras no Memorial de Curitiba (Largo da Ordem) e 13 na Galeria Arte Singullar (Rua Saldanha Marinho, 1582,telefone (41) 224-2010), em Curitiba. Ambas exposições permanecem até dia 19 de maio.


