O panorama deve mudar, claro, uma vez que não é um festival deliberadamente temático. Mas que as mulheres pontificaram nesses dois primeiros dias, nenhuma dúvida. Depois do cubano ''Rosa la China"'' do sueco-dinamarquês ''Lilia 4 Ever'' e do americano ''Frida'', respectivamente centrados numa cantora de night-club na Havana pré-Fidel, na adolescente russa vendida como escrava e obrigada a se prostituir, e na intempestiva pintora surrealista mexicana, chegou a vez de novas incursões à alma feminina.
Em ''Between Strangers'', produção canadense-italiana assinado por Edoardo Ponti, três mulheres, cada qual lidando com fragilidades e coragens de maneiras diversas, buscam a libertação, uma espécie de justificativa para o estar no mundo. Olívia (Sofia Loren) é casada com um paraplégico, cultiva uma paixão secreta pelo desenho e sonha em se reaproximar da filha que teve com outro homem mas foi abandonada logo depois do nascimento, há muitos anos. Natália, fotógrafa, procura descobrir o que aconteceu com uma criança logo depois que a fotografou para uma capa de ''Time''. E Catherine, violoncelista famosa, parte para um acerto de contas com o pai recém-saído da prisão, a quem responsabiliza pelo morte da mãe. Filme de estilo e linguagem cosmopolitas, ''Between Strangers'' tem confessadas (mas nem sempre visíveis...) influências de Kieslowski e Antonioni. Pelo menos neste início, o forte de Edoardo Ponti com certeza não é roteiro. E sua mão com atores também precisa ser acertada - curiosamente, o personagem mais crível é...adivinhem? Exatamente, mamãe Sofia.
O melhor da resenha veneziana, até o momento, é o irlandês ''The Magdalene Sisters'', denúncia implacável da violência e crueldade da sociedade religiosa Irmãs de Madalena (o nome é derivado de Maria de Magdala, a prostituta redimida por Cristo), uma espécie de instituto de ''correção'' para moças criado pela Igreja Católica na Irlanda no século 19, onde ficavam reclusas mães solteira, jovens prostitutas e até garotas com ''suspeitadas'' tendências a atividades sexuais. O ator, escritor e diretor Peter Mullan situa sua história nos anos 1960, e sua narrativa terrível - e quase nada divulgada - é em torno da tragédia que atinge quatro irlandesas trancadas pelas próprias famílias numa dessas casas em Dublin, a partir de 64. Longamente aplaudido durante e após a sessão para a crítica, ''The Magdalene Sisters'' é daqueles filmes em que a força social do argumento e a sinceridade do libelo libertário são tão poderosos que eventuais - raros, no caso - problemas são imediatamente relevados. É o primeiro bilhete a ser seriamente considerado na bolsa de apostas da premiação.
E nestes ventos pós-feministas, o simpático, colorido e cantante ''Nha Fala'' chega com um jeito meio malandro, quase brasileiro. A origem não nega: a diretora é Flora Gomes, da Guiné Bissau, e a co-produção é franco-portuguesa. A africana Vita, dona de bela voz, cisma de morar em Paris. Mas promete à mãe não cantar mais, já que sobre as mulheres da família paira uma maldição: morte na certa para as cantoras. Tão logo chega a Europa, porém, Vita se apaixona por um músico, que a convence a gravar um disco. Acima de tudo divertida, esta comédia musical aborda as relações África-Europa e o contraste entre tradição e modernidade. (C.E.L.J., de Veneza)

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