O UNIVERSO DOS ALMANAQUES
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de junho de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Machado de Assis os definiu como a oficina da vida. Eça de Queirós escreveu que um dia não registrado em suas folhas seria como um negro pedaço de não-ser por onde um pedaço de nossa vida se afundaria.
Hoje, nenhum escritor de renome ousaria atribuir tal importância aos almanaques, relegados que foram ao estigma do pitoresco e à nostalgia de um passado remoto. Mesmo assim, o status que ostentam como objetos de estudo não para de crescer entre os pesquisadores.
Prova disso é o lançamento do livro-catálogo Do Almanak aos Almanaques (Ateliê Editorial), organizado por Marlyse Meyer, que chega ao público dois anos depois do colóquio internacional realizado na Unicamp e no Memorial da América Latina reunindo especialistas do Brasil e da França para discutir o assunto.
Do Almanak aos Almanaques é resultado da exposição que seguiu-se ao colóquio. O livro brinda os leitores com o conto Como se Inventaram os Almanaques, de Machado de Assis, incluindo ainda breves linhas da autora-organizadora e de um seleto grupo de estudiosos, entre eles o professor francês Jean-François Botrel.
Mais visual do que ensaístico, reúne reproduções de capas, folhas de rosto e páginas dos mais diversos almanaques garimpados de museus e coleções particulares (em especial do bibliófilo José Mindlin). Desconhecido das novas gerações, esse gênero de publicação teve seu apogeu entre os séculos 17 e 18 e ainda resiste como veículo de comunicação e manifestação popular.
No nordeste brasileiro, é difundido pelos autores de cordel. Nas bancas de revistas, está representado pelo longevo Almanaque do Pensamento, cuja capa traz o sub-título o mais completo guia astrológico. Até a companhia de aviação TAM contribui com seu Almanaque Brasil, criado pelo artista gráfico Elifas Andreato.
Há também os insistentes almanaques de farmácia. Ocasionalmente surgem ainda publicações inspiradas em seu formato. No ano passado, foi lançado o Almanaque da TV, de Rixa. O atual secretário municipal de Cultura de Londrina, Bernardo Pellegrini, chegou a lançar um Almanaque do Amor no final da década de 80.
Em sua forma mais popular, o almanaque apresenta-se como um calendário-agenda ilustrado com figuras e signos embutindo invariavelmente horóscopo, nomes dos santos de cada dia, previsões, fases da lua, piadas de salão, receitas, charadas, crônicas, passatempos, frases célebres, interpretação dos sonhos, festividades, obrigações cívicas e cartas enigmáticas.
A ênfase à saúde física e moral da família traduz-se em dicas de nutrição, datas de vacinação, receitas de comida, indicação de fortificantes e conselhos de como educar os filhos e ser uma boa mulher. A mulher de classe privilegiada e urbana lia o folheto, quando o encontrava na farmácia do bairro, até mesmo, por certo modismo. Diferentemente, a mulher do interior, do campo, que não ia à escola, procurava no almanaque um saber sobre o mundo à sua volta salienta Marlyse Meyer.
Até os anos 70, as capas causavam polêmicas. O motivo era a utilização da nudez feminina, que provocava uma chuva de cartas de protestos despachadas principalmente de cidades do interior. Muitas atrizes e manequins famosas enfeitaram as capas dos Almanaque Renascim Sadol e Almanaque Fontoura entre elas Vera Fisher, Bruna Lombardi, Rose di Primo, Elizabeth Savalla, Natália do Vale e Françoise Fourton.
O diretor do Memorial da América Latina, Fabio Magalhães, lembra que a evolução dos almanaques é tão antiga quanto a da invenção dos tipos móveis. Observa que desde o século XV o desenvolvimento da arte tipográfica e a evolução dos almanaques andam de mãos dadas, e com as publicações quase sempre respondendo graficamente aos movimentos artísticos vigentes.
Note-se, por exemplo, que a Europa encontra-se em pleno art noveau em fins do século XIX. As publicações estão repletas de desenhos e arabescos, que logo caem no gosto do homem comum, não havendo praticamente limites entre e arte e a decoração. O design gráfico dos almanaques segue a mesma cartilha observa ele.
O professor da Universidade de Rennes, Jean-François Botrel, insere o almanaque entre aqueles fenômenos cuja trivialidade de seus usos os tornam esquecidos, ignorados e até desprezados. Os almanaques, como vários outros objetos da cultura material ou impressa estão ainda hoje, e há muito tempo, presentes no Brasil como em vários outros países da América ou da Europa sem que se dê por isso, porque fazem parte do cenário cotidiano tanto quanto os outdoors publicitários ou o jornal televisivo escreve.
Jerusa Pires Ferreira, professora da ECA-USP e do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC-SP, aponta o aspecto civilizador desse tipo de publicação que, tanto nas cidades quanto nos povoados mais afastados, cumpriria a função de conselheiro e guia. Essa característica marca particularmente os almanaques farmacêuticos, distribuídos gratuitamente no fim do ano por ocasião de festas de Natal e Ano-Novo.
O primeiro a surgir foi o Pharol da Medicina, em 1887, com uma tiragem inicial de 100 mil exemplares. O mais famoso foi o Almanaque do Biotônico Fontoura, que trazia uma edição especial do Jecatatuzinho, elaborada e escrita por Monteiro Lobato. A figura anêmica de Jeca Tatu representava o homem do campo anêmico, vítima de vermes e do amarelão, que depois de tomar a poção do biotônico Fontoura transformava-se num sujeito robusto, modelo de força, beleza e saúde.
Biotônico Fontoura circulou dos anos 20 até a década de 80. Sua tiragem anual alcançou a marca de 3 milhões de exemplares. Como ele, todos os almanaques farmacêuticos eram produzidos por laboratórios para divulgar seus medicamentos, especialmente tônicos, cujos rótulos vinham impressos na capa. Hoje os mais conhecidos são o Sadol, do Laboratório Catarinense, e o Iza, do Laboratório Kraeme, de Porto Alegre.
Os títulos farmacêuticos já foram investigados pelas pesquisadoras Vera Casa Nova e Margareth Brandini Park, cujos livros Lições de Almanaque Um Estudo Semiótico e Histórias e Leituras de Almanaques no Brasil emprestam vários trechos ao mais recente volume dedicado ao assunto. Marlyse Meyer rastreia de forma mais modesta o fenômeno, mas dá uma grande contribuição para remover a poeira e as teias de aranha que insistem em cobrí-lo sob estigmas.
Do Almanak aos Almanaques. Organizadora: Marlyse Meyer. R$ 36,00. Ateliê Editorial. Tel. (11) 4612-9666. www.atelie.com.br.


