O universo de Ponette
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de setembro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
São 97 penosos minutos. Mas vale a pena encarar Ponette (em exibição no Cine Ouro Verde, em Londrina), filme de Jacques Doillon que coloca em confronto direto os conceitos de perda dolorosa e irreversibilidade da morte. Em termos adultos, a discussão já seria em si complicada. Mas como pivô pragmático desta sisuda controvérsia existencial quem se apresenta é a pequena Ponette. Ela acaba de perder a mãe num acidente de carro. Não se conforma. Age de forma exatamente contrária àquela que os adultos gostariam, isto é, polida, tranquila. Não é polida, muito menos tranquila. Uma tia menciona que Jesus um dia ressuscitou, e que um dia vai ressuscitar todo mundo. Sim, mas quando? É agora e já, que Ponette quer rever a mãe. O primo Mathiaz, um ano mais velho e portanto com um ano a mais de lógica, tem opinião definitiva sobre a questão: quando se aparafusa a caixa, ninguém pode mais sair de dentro. Logo, a mãe de Ponette não voltará jamais.
Ponette é uma magnífica obcecada. Uma extremista. Não concebe a vida sem a mãe. Reza a Deus todo-poderoso. Chora muito, fere as mãozinhas cavando a terra do cemitério onde a mãe está enterrada. De repente, a recompensa numa sequência sublime. Doillon filma tudo, a histeria infantil inclusive, com um rigor clássico. Aos gestos, uma atenção constante. Mais que as palavras, aqui eles refletem a alma dos personagens.
A francesinha Victoire Thivisol saiu ano passado de Veneza com a Colpa Volpi para melhor atriz. Não houve o que discutir, diante deste fenômeno que teve permanente acompanhamento psicológico durante as filmagens. Envolvente e contagiante, a pequena atriz soube dimensionar e transmitir, de maneira original e realista, o opressivo volume da dor de uma separação súbita, violenta e irreversível.


