O universo de Nelson Rodrigues, marcado pelo dilema entre paixão e moral, é o mote de "Gêmeas"
São Paulo, 13 (AE) - O legado literário de Nelson Rodrigues inspira mais um longa-metragem nacional: "Gêmeas", que chega amanhã (14) aos cinemas de São Paulo. O filme dirigido pelo estreante Andrucha Waddington consegue capturar a essência do universo rodrigueano, impondo aos personagens aquela paixão desmedida que atropela os valores morais e quase sempre resulta em tragédia. Ainda que tenha sido transportada para os anos 80, a história mantém a atmosfera irresistivelmente maliciosa do conto de duas páginas escrito nos anos 50.
A adaptação para a tela foi realizada por Elena Soárez - responsável também pela roteirização do episódio "Diabólica", outro conto de Rodrigues que chegou aos cinemas como parte do longa "Traição". O filme é da atriz Fernanda Torres, mulher do cineasta, que desfruta do privilégio de criar vários personagens em cena. Além de interpretar as protagonistas, as irmãs idênticas Iara e Marilena, ela se encarrega de mais uma encenação: quando Iara tenta se passar por Marilena.
Embora tenham as mesmas características físicas, as irmãs carregam diferenças profundas de personalidade. Iara é costureira como a mãe (Fernanda Montenegro, em participação especial), enquanto Marilena é bióloga. A primeira é mais fogosa
aquela que verdadeiramente se diverte ao pregar peças nos homens - quando ela se passa por Marilena para experimentar os namorados da irmã, incluindo Matheus Nachtergaele.
Marilena leva tudo na brincadeira - apesar da desaprovação do pai (Francisco Cuoco). Só que o pacto de compartilhar os homens chega ao fim quando Marilena conhece Osmar (Evandro Mesquita), proprietário de auto-escola. Ao perceber que está sobrando, Iara passa a arquitetar um plano, fazendo o filme progredir na direção de um suspense. Clima de tensão
Waddington, ex-assistente de Walter Salles, Cacá Diegues e Hector Babenco, consegue instaurar um clima de tensão. Também se mostra habilidoso na direção de atores: Fernanda recorre acertadamente a mudanças sutis para trocar de personalidade e Evandro Mesquita finalmente deixou de lado a postura de eterno surfista.
O único aspecto que deixa a desejar é a evidente participação da dublê Isabel Guéron. Por mais que elas sejam parecidas de costas, o filme deixa escapar algumas aparições da dublê de frente e de perfil - principalmente na sequência do enterro da mãe, em que as duas atrizes, lado a lado, seguindo o funeral, deixam claro que a semelhança não vai muito além da cor e do corte dos cabelos. E.G.





