O universo de Nélson Rodrigues em três visões diferentes2/Mar, 15:16 Por Beth Népoli São Paulo, 02 (AE) - Mais do que ser tema de ensaios e teses acadêmicas, receber elogios e premiações, um autor teatral deseja ver seus textos no palco. No momento, Nélson Rodrigues não poderia queixar-se do teatro paulistano: três produções profissionais de suas peças estão em cartaz na cidade. Três espetáculos de qualidade. "A Serpente" está em temporada no Teatro da Aliança Francesa e integra o Festival de Verão do premiado Grupo Tapa, o que significa diversidade de opções de horários e preços de ingresso. No histórico Teatro de Arena, o público pode ver "Bonitinha, mas Ordinária", dirigida por Marco Antônio Braz, um diretor que há anos vem pesquisando o universo do autor e já levou ao palco "Perdoa-me por me Traíres" e "Boca de Ouro". E Marcelo Drummond vive o bicheiro nascido no bairro de Madureira, subúrbio do Rio, personagem central de "Boca de Ouro" na montagem do Teatro Oficina, brilhantemente dirigida por José Celso Martinez Corrêa. Juntos, os três espetáculos oferecem ao público uma excelente oportunidade de conhecer melhor a obra do dramaturgo. Última peça escrita por Nélson Rodrigues, "A Serpente" sempre foi vista como um texto menos importante na extensa criação do dramaturgo. A montagem do Tapa pode provocar um revisão desse ponto de vista. No palco, Denise Weinberg interpreta a mulher bem casada que divide o apartamento com a irmã vivida por Clara Carvalho, também casada, porém insatisfeita ao lado do marido impotente. Temendo o suicídio da irmã, a personagem vivida por Denise decide emprestar o marido por uma noite. Desejo - A partir daí, Nélson explora em profundidade sentimentos como amor, ciúme, posse e, sobretudo, o desejo. Sobre esse último, o diretor Eduardo Tolentino centrou sua concepção no desejo nesse espetáculo cujo cenário, não por mera coincidência, resume-se a uma cama. A encenação deixa claro que o desejo detona todas as ações e é também motor de cada palavra e cada gesto em cena. "Boca de Ouro", o bicheiro que os jornais chamam de "crápula de Madureira", nasceu numa pia de gafieira, onde foi abandonado pela mãe. Pelo menos é o que diz a lenda, uma vez que da forma como Nélson construiu a peça, não é possível saber a verdade sobre o personagem. A ação tem início com a morte do bicheiro e, a partir daí, sua história é contada a um repórter pela ex-amante. Na primeira versão, abandonada e ressentida, ela constrói o perfil de um assassino frio e cruel. Arrepende-se ao saber de sua morte em numa nova versão, empresta ao bicheiro uma pinta de lorde. Finalmente, pressionada pelo atual marido, descreve o bicheiro como um covarde. A cena de nascimento do deus pagão Boca e o efeito simples e bonito na troca dos dentes naturais do bicheiro pela dentadura de ouro que lhe dá o apelido estão entre as muitas qualidades do espetáculo. Quem teme espetáculos interativos pode ficar tranquilo. Não é desta montagem de "Boca de Ouro", na qual o texto foi mantido na íntegra, com seus diálogos contundentes e sempre bem-humorados. Em "Bonitinha", por exemplo, só o diálogo inicial entre os personagens Peixoto e Edgar, uma alucinante conversa entre dois bêbados rasgando a máscara de hipocrisia, vale o ingresso. "Bonitinha" é uma peça única na carreira de Nélson. Com habilidade de mestre, ele coloca um personagem diante de uma tentação quase irresistível. E mostra toda a extensão do conflito que pode ser de todo homem na mesma situação. Serviço - "Boca de Ouro". De Nélson Rodrigues. Direção de José Celso Martinez Correa. Duração: 2h30. Quinta, sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 20,00 e R$ 10,00 (quinta). Teatro Oficina. Rua Jaceguai, 520, tel. 3106-2818. Até 5/3 "Bonitinha, mas Ordinária". De Nélson Rodrigues. Direção de Marco Antônio Braz. Duração: 1h50. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 10,00 (quinta e sexta) e R$ 16 00. Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Rua Teodoro Baima, 94, tel. 256-9463. Até maio "A Serpente". De Nélson Rodrigues. Direção de Eduardo Tolentino de Araújo. Duração: 45 minutos. Terça, às 19 horas, sábado, às 20 e domingo, às 18 horas. Integra o Festival de Verão do Grupo Tapa. R$ 10,00 (terça) e R$ 20,00. Teatro Aliança Francesa. Rua General Jardim, 182, tel. 259-0086. Até 5/3