O universo caipira brasileiro
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segunda-feira, 21 de julho de 2008
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Se deixarem, ele passa a noite inteira contando causos que habitam o universo caipira brasileiro. O paulista Paulo Freire é expert no assunto. É a segunda vez que participa como convidado do Festival de Música de Londrina. Violeiro de primeira linha, o artista faz parte da geração responsável por revitalizar a tradição popular do instrumento projetando-o para as salas de concerto.
Hoje ele se apresenta no Teatro Zaqueu de Melo; e amanhã faz show no Bar Valentino. Sua programação inclui ainda a realização de uma oficina de viola e contação de histórias. ''Vou mostrar o espetáculo que venho apresentando pelo Brasil no qual reuni causos como o do Curupira, da mula sem cabeça e mitos indígenas do Norte do País. É importante frisar que acredito em todas essas histórias'', enfatiza.
Entre seus relatos figuram pactos com o diabo, o encontro de Jesus Cristo com o Corpo-Seco, a peleja do sapo com o veado, a criação de sacis no interior paulista e, claro, façanhas em caçadas e pescarias. Se a apresentação de hoje é dedicada às narrativas do imaginário sertanejo, o show de amanhã intercala fábulas com músicas autorais, canções de domínio público e temas de duplas conhecidas como Alvarenga e Ranchinho e Zé Mulato e Cassiano.
Seu último disco, ''Redemoinho'', saiu no ano passado pelo seu próprio selo - Vai Ouvindo. O álbum traz 11 faixas instrumentais. ''Procurei me aprofundar nas composições escrevendo os arranjos para violoncelo, sax, flauta, tudo. O trabalho é uma homenagem aos meus mestres Henrique Pinto, Betho Davesaky e Manoel de Oliveira'', salienta.
Nascido em Campinas (SP), Freire começou a carreira dedicando-se aos estudos de violão e guitarra no Clam, a famosa escola do Zimbo Trio, em São Paulo. Posteriormente mudou-se para Paris. Foi na região do rio Urucuia, interior de Minas Gerais, que Freire se converteu à viola e à cultura caipira. Ele decidiu embrenhar-se no ambiente agreste após ler o livro ''Grande Sertão: Veredas'', de Guimarães Rosa.
Queria pesquisar a musicalidade escondida no local. Durante dois anos, 1977-1978, ele viveu entre lugares sem energia elétrica e São Paulo. Lá, conheceu os costumes e lendas comuns ao universo dos violeiros. Lá aprendeu a tocar viola com o mestre Manoel de Oliveira, do qual produziu um álbum há dois anos.
''Ele é o meu contato com a região de Urucuia. Sei que a região sofreu uma transformação violenta com a chegada da luz elétrica, a televisão e o telefone. As pessoas que antes conversavam na porta de casa no final da tarde, hoje assistem a novela das 6. Mas alguns lugares ainda preservam as tradições'', diz.
Freire conta que um de seus novos projetos é a gravação de um CD e a publicação de um livro com patrocínio da Petrobras - ambos tematizando os mitos presentes na cultura popular. Outro projeto em que está envolvido é a série ''Violeiros Brasileiros'', produzido por Mirian Taubkin em formato de livro e DVDs. Ele aparece na pesquisa ao lado de músicos como Adelmo Arcoverde, Ivan Vilela, Almir Sater, Pereira da Viola, Braz da Viola, Roberto Corrêa e outros.
Filho do escritor e terapeuta Roberto Freire (1927-2008), o artista herdou do pai a paixão pela palavra escrita. Neste ano, publicou o livro infantil ''Céu de Criança'' pela editora Companhia das Letras. ''O obra é distante do universo da viola'', explica. ''Traz histórias dirigidas para crianças. Eu e minha esposa (a cantora Ana Salvagni), temos o costume de contar histórias para nossos filhos e esse livro nasceu praticamente ali no quarto dos pequenos e com palpites deles.''


