O ULTRAJE DE SEMPRE
Ranulfo Pedreiro
Quando o rock começou a ressurgir no Brasil no início da década de 80 - após a tempestade das discotecas -, os arranjos eram básicos, as letras adocicadas e o instrumental fraco. Em resposta às bandas comportadas, que desfilavam com gravatas coloridas, surgiu o Ultraje a Rigor, grupo escrachado que prima pelo bom humor em sátiras a estilos que vão do reggae ao punk.
O Ultraje fez escola e foi uma espécie de predecessor do besteirol atual - lembrando que Mutantes, Língua de Trapo e Joelho de Porco também transitaram pelo gênero - encabeçado pelos Raimundos. Depois de alguns anos de molho, o grupo volta à cena pop com um híbrido de disco ao vivo e gravações de estúdio: Ultraje a Rigor - 18 anos sem tirar, lançado pela Abril Music.
Após Ó!, lançado em 1993, a banda se diluiu. Mas o guitarrista e compositor Roger Moreira requisitou novos músicos e partiu para ensaios e alguns shows. Apesar da maré baixa, Roger resolveu concretizar uma idéia antiga: registrar a performance ao vivo do grupo. A formação atual conta com Heraldo na guitarra, Flávio na bateria e Mingau no baixo. O único remanescente da formação original - que contava também com Leôspa - é Roger.
Na época em que os primeiros discos do Ultraje foram lançados, as guitarras pesadas ainda assustavam os ouvintes e as gravadoras optavam por amenizar a sonoridade dos mais barulhentos. Ao vivo, o Ultraje lembra bastante o desprendimento dos Ramones, e a pegada mais hardcore se diferencia dos arranjos originais.
Com dois shows gravados, Roger saiu atrás do lançamento. As respostas das gravadoras foram negativas. Até que Rafael Ramos, filho de um executivo da Abril Music, resolveu procurar notícias da banda que ouvia na infância. Anos depois de gravado, o CD ao vivo do Ultraje chega às lojas.
A gente tenta lançar há três anos. Passou tanto tempo que sentimos necessidade de compor para não ficar uma coisa nostálgica, comenta Roger em entrevista por telefone à Folha2. Surgiram quatro músicas inéditas que foram incluídas no CD.
Nós chegamos à maioridade sem ficarmos rançosos, tivemos a oportunidade de começar duas vezes. Ficamos seis anos sem gravar e estamos meio sumidos desde 90, lembra o guitarrista. O marco de referência para os 18 anos do Ultraje a Rigor é um show realizado em 1981.
Se depender das rádios, o baixo-astral da banda passou. A inédita Nada a Declarar já é uma das mais tocadas, e mantém o estilo despojado que caracteriza o grupo. As outras inéditas são Monstro de Duas Cabeças, Preguiça e Giselda.
Além das clássicas Inútil, Mim Quer Tocar, Nós Vamos Invadir sua Praia, Eu me Amo e Rebelde Sem Causa, o repertório ao vivo - gravado em 1996 no AeroAnta, em Curitiba - traz uma versão hardcore para My Bonnie, a música que infernizou boa parte da geração que tentou aprender inglês nos anos 70 e início dos 80.
Quem espera uma mudança de sonoridade ou uma aproximação com as tendências mais atuais da música pop, vai se decepcionar. O Ultraje não abre mão do trio baixo-guitarra-bateria e das faixas com poucos acordes. Ou seja, continua fazendo rock em clima de farra, sem pretensões. Não vai além disso. Se, por um lado, o som parece repetitivo, por outro a banda não mudou de estilo para conquistar público, como alguns de seus companheiros da década de 80.
Ultraje a Rigor - 18 anos sem tirar - Disco lançado nacionalmente pela Abril Music. O preço em média do CD gira em torno de R$ 21,00.





