O último take de 2011
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Embora a qualidade geral dos filmes que estrearam nas telas dos cinemas brasileiros em 2011 não tenha sido grande coisa, selecionar os ''cinco melhores do ano'' (entre aspas, mesmo) é uma tarefa difícil e ingrata para qualquer amante da Sétima Arte. Esta função faz com que seja inevitável preterir alguns bons filmes para dar destaques a outros - mais completos na linguagem ou na forma cinematográfica, mas não menos importantes. Essa tarefa quase impossível fez este pobre repórter passar noites em claro, entre sonhos e pesadelos, refletindo sobre os longa-metragens que mais conseguiram atingir o seu objetivo dramático, e medindo isto com a competência da direção, roteiro e fotografia de cada um dos filmes selecionados.
Faço aqui um 'mea culpa'. Talvez não fosse tão difícil fazer uma lista como esta se eu não encarasse, de maneira bastante pessoal, cada filme a que assisto como uma desgastante jornada emocional. Não me basta, como jornalista e cinéfilo, analisar uma obra cinematográfica friamente, sem me envolver completamente com sua história e sem me apaixonar por seus personagens. A sala escura do cinema, que transmuta a realidade tão corriqueiramente, é quase que como um templo mágico: a pipoca acaba, as luzes se acendem e, se tenho sorte de ver um bom filme, já não me sinto mais o mesmo de antes.
Dito isto, fica claro que não tive a pretensão de definir os cinco ''melhores'' filmes do ano; tentei separar cinco recomendações variadas que, independentemente do gosto cinematográfico de cada um, valem a pena ser conferidas. Acredito que os filmes listados abaixo, diversos tanto na forma quanto no conteúdo, tiveram sucesso em manter viva a magia nas telas do cinema em 2011. Confira:
A Árvore da Vida
Mesmo sendo um pouco (pouco?) pesado para o espectador desavisado, é impossível ignorar a importância do poema cinematográfico de Terrence Malick para o cinema em 2011. Ganhador do prêmio máximo em Cannes, o filme é difícil, repleto de profundos questionamentos existenciais que abordam desde a essência da vida até a moralidade do Universo. Além das boas atuações de Brad Pitt e de Sean Penn, o que faz o longa ser destaque é a direção impecável, e uma fotografia que entra para a lista das mais belas da história do Cinema - o que levou ''A Árvore da Vida'' a ser comparado pela crítica com ''2001, Uma Odisséia no Espaço'', clássico de Kubrick.
Ação! - Explosões vulcânicas, mares revoltos, o silêncio do Universo e uma conversa com Deus. A ousada experiência de Malick proporciona cenas que quebram a narrativa linear e transpiram genialidade.
Corta! - Muitas pessoas reclamam da cena com os dinossauros, que claramente destoa da qualidade estética das outras (sim, existem dinossauros neste filme).
Quem gostou, também vai curtir - ''Melancholia'' (2011), de Lars Von Trier.
Super 8
Um dos maiores blockbusters do verão americano, a emocionante ficção do diretor J.J. Abrams conta a história de um grupo de garotos que, por acidente, se veem perdidos no meio de uma experiência secreta do governo americano. Com bom ritmo e ótimas atuações, o longa, produzido por Steven Spielberg, é diversão garantida para toda a família.
Ação! - Uma das cenas mais impressionantes é a do acidente de trem. Você vai se agarrar na cadeira.
Corta! - ''Super 8'' acaba perdendo um pouco do seu potencial pela falta de carisma do inseto extraterrestre, que não esbanja simpatia.
Quem gostou, também vai curtir - ''E.T'' (1982), de Steven Spielberg, e ''Os Goonies'' (1985), de Richard Donner.
Meia-Noite em Paris
Não é por acaso que o último lançamento de Woody Allen é, também, o maior sucesso comercial do cineasta. Lotando cinemas e arrancando suspiros do público, ''Meia-Noite'' conta uma ótima história, e é um romântico e nostálgico passeio cultural por uma das cidades mais bonitas do mundo. A narrativa acompanha um famoso escritor de roteiros de Hollywood (Owen Wilson) que, decepcionado com sua profissão, quer se mudar para a capital francesa para escrever 'romances de verdade'. No meio de um passeio noturno, ele viaja no tempo e se transporta para a 'Belle Époque' parisiense, no centro de sua efervescência cultural. Com a companhia ilustre de personagens como Fitzgerald, Hemingway e Salvador Dalí, o filme é uma agradável e inesquecível surpresa.
Ação! - O personagem beberrão e inconsequente de Ernest Hemingway rouba toda a cena em que aparece, e tem um memorável diálogo sobre o amor (e, também, sobre como matar um animal com as próprias mãos).
Corta! - A trama surrealista pode desagradar quem espera por apenas mais um filme de romance. Mas, se você está familiarizado com o trabalho de Woody, sabe o que esperar.
Quem gostou, também vai curtir - ''Vicky, Cristina, Barcelona'' (2008), de Woody Allen e ''O Anjo Exterminador'' (1962), de Luiz BuÀuel (e que é citado neste filme de uma maneira muito divertida).
X-Men: Primeira Classe
O filme que salvou o ano dos heróis medíocres (os fracos Lanterna Verde e Capitão América) também reanimou, com superpoderes, a moribunda franquia do X-Men - que havia sofrido um duro golpe com seu último spin-off, o horrível ''Wolverine: Origins'' (2008). Dirigido por Matthew Vaughn e fugindo da mesmice encontrada na maioria das 'prequels', os jovens personagens de Professor Charles e Magneto conseguem alcançar a química ideal nas telas, enriquecendo a trama com debates sociológicos e humanizando o relacionamento de amizade/ódio entre os dois principais pilares da saga dos mutantes. Imperdível para os fãs do gênero.
Ação! - Mesmo sendo um filme que acontece, cronologicamente, antes das outras histórias da saga, o roteiro de ''Primeira Classe'' guarda boas surpresas, que acrescentam muito para a mitologia geral dos X-Men.
Corta! - É impossível saber se a franquia de X-Men - que já tem cinco filmes - ainda vai ter, no futuro, mais boas histórias para contar.
Quem gostou, também vai curtir - ''Watchmen'' (2009), de Zack Snyder, e ''Homem Aranha'' (2002), de Sam Raimi.
O Palhaço
Inteligente, charmoso e sentimental, a trupe da dramédia ''O Palhaço'', atuada e dirigida por Selton Mello, conseguiu elevar o nível do cinema brasileiro neste ano. Acompanhando a história do pequeno Circo Esperança em clima de road-movie, o filme tem como ponto principal a jornada emocional e o relacionamento entre os palhaços Puro Sangue (Paulo José) e Pangaré (Selton Mello), pai e filho fora das lonas do circo. Com um elenco coadjuvante espetacular - que conta com algumas surpresas e participações especiais no meio do caminho - ''O Palhaço'' é uma história divertida e comovente sobre a busca de um indivíduo pela própria identidade.
Ação! - A atuação de Selton Mello como um palhaço triste foge dos clichês e está espetacular; nela reside toda a força dramática do longa.
Corta! - Apesar de ter cenas muito engraçadas, quem for esperando uma comédia 'água com açúcar' pode se decepcionar.
Quem gostou, também vai curtir - ''Diários de Motocicleta'' (2004), de Walter Salles e ''Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres'' (2011), de Joann Sfar.
O que vem por aí
Alguns filmes - que estreiam no Brasil apenas em janeiro/fevereiro de 2012 - também poderiam beliscar um lugar nesta lista: ''Os Homens que Não Amavam as Mulheres'', de David Fincher; ''War Horse'', de Steven Spielberg; ''Hugo'', de Martin Scorcese e ''The Artist'' - favorito para ganhar o Globo de Ouro 2011 - do cineasta Michel Hazanavicius.


