O último suspiro literário
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de julho de 2002
Marcos Losnak<BR>Especial para a Folha 
Todo escritor possui um lixo ao lado de sua mesa de trabalho. Alguns possuem recipientes maiores, outros menores. Um lugar onde jogam as tentativas literárias que não deram certo, as idéias pueris, as tramas sonsas, os textos fracos e outras coisas. O lixo do escritor é, invariavelmente, vetado ao leitor. Assim como o lixo dos restaurantes é vetado aos clientes.
Em seu último romance, o escritor norte-americano Joseph Heller resolveu mostrar o que pode ser encontrado no lixo de um velho romancista. Não seu lixo propriamente, mas o do seu alter ego em crise com as letras. Escrito pouco antes de morrer, vítima de infarto, em outubro de 1999, e publicado postumamente, Retrato do Escritor Quando Velho está sendo lançado no Brasil pela Cosac & Naify.
Numa alusão ao Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce, a obra de Joseph Heller narra a história de Eugene Pota, um escritor de 75 anos de idade que procura escrever seu último livro antes da aposentadoria. Após inúmeras tentativas, o personagem se enterra numa crise criativa que coincide com o colapso de seu terceiro casamento.
Ao mesmo tempo que apresenta a trajetória do escritor, Heller coloca nas páginas de Retrato do Escritor Quando Velho as tentativas literárias de Pota. Entre elas, a experiência de reescrever episódios da Ilíada, histórias da Bíblia, a vida de Tom Sawyer e a Metamorfose de Franz Kafka. Em busca de uma obra-prima que encerre com glórias sua carreira literária, o personagem procura colocar em práticas idéias que nunca termina.
Entre as várias tentativas, todas criticadas por seu editor, aquela que se dedica mais tempo é um inusitado romance intitulado Uma Biografia Sexual de Minha Esposa. Para narrar as aventuras libidinosas do ponto de vista de uma mulher, Pota começa a realizar pesquisa de campo, com depoimentos da própria esposa e antigas amantes. O fato é que ninguém resolve abrir a boca e sua crise sobe alguns pontos.
Conhecido autor de Ardil 22, romance que tornou-se referência na literatura norte-americana da década de 60, Joseph Heller (1923-1999) mantém em Retrato do Escritor Quando Velho uma das principais características de suas obras: o teor irônico e satírico de suas histórias. É inegável que está falando de si mesmo nesse último escrito, embora use a ficção para isso.
Apesar do romancista experiente, o alter ego de Heller depara-se perdido entre dezenas de idéias, fragmentos de memória e divagações distantes. Contrariando o peso da idade, procura insuflar seu trabalho com uma velocidade que não consegue acompanhar. Sua aspiração em encerrar a carreira com sucesso não o deixa ver que sua carreira na realidade já terminou. Sua insistência é apenas um subterfúgio para continuar vivendo. Uma muleta para distrair a atenção durante o trajeto em direção ao cemitério.
''Eu não tenho mais nada para fazer'', confessou Pota, humildemente, mais uma vez. ''O telefone já não tem tocado como antes com chamadas que não quero atender. Não tenho recebido faxes com pedidos de entrevistas que não quero conceder, nem convites para festas de que não quero participar, vindo de pessoas que não quero encontrar. Sinto falta dessas interrupções! Alguns dias o telefone nem chega a tocar! Agora acho que escrever é a praticamente a única forma de ter consciência de mim mesmo. Já não sei quem eu sou nem o que estou fazendo da vida quando não estou trabalhando num livro.''
(Fragmento de ''Retrato do Escritor Quando Velho'')


