O último romântico russo
Marcos Losnak Especial para a Folha2
Um dos períodos mais férteis da literatura russa teve como palco o século passado. Nomes como Dostoiévsk, Tolstói, Gorki, Puchkin, Gogol, Checov, Gontcharov, Turgueniev e outros conferiram um novo vigor à prosa russa. Aleksandr Púchkin (Alexandre Sergejevich Puchkin) foi o marco inicial desse esplendor literário do século 19, foi o responsável pelo primeiro pontapé na bola da literatura russa moderna.
Nascido em Moscou em 1799, Púchkin criou uma numerosa obra em poesia e prosa. Filho de família aristocrata russa, possuía sangue negro nas veias. Seu bisavô materno, Anibal, era um negro abssínio comprado por Pedro, o Grande, de um sultão em Constantinopla. Sob a proteção de Pedro, Anibal acabou se tornando um importante general do exército russo, casando-se com uma das damas da corte.
Púchkin cultivava um orgulho de suas raízes africanas, tema de uma de suas novelas, O Negro de Pedro, o Grande. Neste texto o escritor reconstitui, ficcionalmente, a vida e os amores de Anibal, um elegante negro dentro da aristocracia branca russa. Esta novela abre o livro A Dama de Espadas lançado recentemente pela Editora 34 que traz novelas, contos e poesias de Púchkin. Organizado e traduzido por Boris Schnaiderman, a obra possui uma longa trajetória tratando-se de um dos raras iniciativas em converter Púchkin, para o português, diretamente da língua russa.
A Dama de Espadas foi publicado originalmente em 1962 sob o título de O Negro de Pedro, O Grande (Editora Difusão Européia do Livro). Posteriormente foi reeditado em 1982 já sob o título de A Dama de Espadas (Editora Max Limonad), nome de um dos contos do livro. A presente edição da Editora 34 foi revista e acrescida de poemas de Puchkin, que não apareciam nas edições anteriores, traduzidos por Nelson Ascher.
Púchkin sofreu forte influência do romantismo europeu. Boris Schnaiderman aponta, no prefácio do livro, que em sua prosa, o elemento cômico frequentemente irrompe em meio a uma tragédia. As ironias cômicas de suas histórias estão em pequenos detalhes, como pequenos pigmentos de suas narrativa. O escritor também é apontado como o pré-introdutor dos conflitos do homem comum, pessoas do povo, na prosa russa.
Parte da prosa de Púchkin foi escrita nos últimos anos de sua vida. Algumas de suas novelas não chegaram a ser concluídas, como o caso de Dubróvski, história de uma espécie de Robin Hood Russo que rouba os ricos para dar aos pobres e acaba se envolvendo numa violenta paixão pela filha de um aristocrata.
No mundo em que Púchkin viveu os duelos eram uma prática comum. Além de ser um tema presente em seus contos, participou de vários deles e foi exatamente num duelo que perdeu a vida. Em 1837, vivendo em São Petersburgo, o escritor russo presenciou várias situações em que sua bela esposa era cortejada por um galanteador. Como bom romântico, não medindo consequências, intimou tal sujeito para um duelo. Acabou levando a pior, ferido mortalmente pelo adversário.
No conto O Tiro, presente em A Dama de Espadas, Púchkin conta a história de Sílvio, um exímio atirador que num duelo, vendo a indiferença de um jovem adversário, recusa-se a matá-lo: não via sentido em privá-lo da vida se ele mesmo não conferia nenhum valor a ela. Um duelo só poderia assumir a figura de algo grandioso, e talvez moral, se o adversário sentisse medo em ser morto, se elevasse a vida como o maior valor de todos. Sílvio então dedica sua vida em esperar o dia em que possa acertar as contas, o dia em que o adversário fosse ocupado pelo medo, o dia em que desejasse viver.
Com um clima clássico, Púchkin conta suas histórias diretamente ao leitor, ou a figura que ele assume. Seu objetivo é claro, narrar diretamente ao ouvinte/leitor oferecendo, lentamente, informações que levam ao desfecho, nem sempre rigidamente fechado. Em alguns momentos, o clima que constrói em suas histórias pode ser associado aos climas narrativos de Edgar Alan Poe (1809 - 1849) seu contemporâneo plebeu americano. Separados não apenas pelo espaço, nenhum chegou a saber da existência, muito menos da obra, um do outro. Mas a impressão que se insinua, pelo menos na prosa presente em A Dama de Espadas, é que algo possuem em comum: os homens, até em estado normal, possui algo de extraordinário.
A Dama de Espadas - Prosa e Poemas de Aleksandr Púchkin, Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher, 228 páginas, R$ 27,00.





