Pedro Alexandre Sanches
Agência Folha
Os primeiros segundos de ‘‘Re-Make Re-Model’’, primeiro rock do primeiro álbum do Roxy Music – ‘‘Roxy Music’’, 1972 – condensam toda a sua consistência, agora passível de revisão pela reedição completa, em cópias remasterizadas e, numa tiragem especial, replicantes, em CD, das capas originais, de papelão. (Nada disso vale para o Brasil; aqui, precisamos das importadoras, por enquanto única via de acesso ao material.)
‘‘Re-Make Re-Model’’ ostenta sopros-buzinas, urbanidade chamuscada de timbres medievais, letra banal, citações a ‘‘Ticket to Ride’’, dos Beatles, a Rolling Stones, a Velvet Underground. É uma colagem, e é a essência do pop pós-moderno que então tomava corpo.
Um dos grandes álbuns dos 70, ‘‘Roxy Music’’ é lotado de referências cinematográficas, de citações a moda, estilo e comportamento, de flashes de decadência e cafonice, de romantismo dilacerado (‘‘Chance Meeting’’, meio um ‘‘Sinal Fechado’’, de Paulinho da Viola, à inglesa, referencia um encontro casual para desferir, dramática às pampas, que ‘‘tempo bem gasto é tão raro’’ – está inaugurada a era da impossibilidade). A temática plástica/farsesca/sarcástica se espraia por ‘‘For Your Pleasure...’’ (73), talvez o mais monumental dos discos Roxy – e despedida da parceria com Brian Eno.
Começa por ‘‘Do the Strand’’, que forja uma pretensa nova dança – ‘‘strand’’ –, advogada de acusação de tango, fandango, beguine, samba, valsa; e vai às alturas na demolidora ‘‘In Every Dream Home a Heartache’’, em que uma boneca inflável (‘‘sua pele é como vinil’’, ‘‘boneca inflável/meu papel é servi-la’’) é a amante do narrador – primeiro apogeu da era da impossibilidade.
Eno saindo, Ferry estréia solo – e crooner – em ‘‘These Foolish Things’’ (também 73), recantando repertório de Aretha Franklin, Bob Dylan, Janis Joplin, Carole King, Beach Boys, Stones, Beatles. Cresce o ego, mas não sem razão.
O ano de 1973 continua, à toda. ‘‘Stranded’’, terceiro LP da banda, vem sedimentar a poesia muito peculiar do já inflado cantor, quase sempre também compositor muito peculiar. O disco, que contém das poucas referências diretas do Roxy Music à homossexualismo (os ‘‘cruising boys’’ de ‘‘Street Life’’), é de viscoso imaginário simbolista. Se aproximam, em mais de um plano, o glam rock de lá e o nosso, brasileiro, dos Secos & Molhados, simbolistas até a carne vermelha.
‘‘A Song for Europe’’, a mais matadora canção de Ferry (com Andrew Mackay), vem para assassinar. ‘‘O mundo é minha ostra/ mas é apenas uma concha cheia de memórias’’, ‘‘não há hoje para nós, não há nada para compartilharmos/ a não ser o passado’’, ‘‘por águas de seda/ minha gôndola desliza/ e a
ponte... ela suspira’’, simboliza, em profundo tratado sobre decadência. O estilo Roxy parece se intimidar em ‘‘Country Life’’ (74), que divide as atenções de Ferry com mais um disco solo, o finíssimo ‘‘Another Time, Another Place’’ (74) em que amplia o raio roubando temas de Sam Cooke, The Platters e, loucura, Willie Nelson.
‘‘Siren’’ (75) é o canto de cisne do RM como originalmente concebido, tendo como carros-chefes a corajosa ‘‘Love Is the Drug’’ e, na capa, vestida de sereia, Jerry Hall, então abandonando Ferry para ficar com Mick Jagger – sim, rock’n’roll também é bochicho.
Roxy Music em retração, Ferry parte para ‘‘Let’s Stick Together’’ (76), em que o crooner prefere remodelar – sem muito fulgor – o repertório de sua própria banda. Seu solo seguinte, o esquisito e roqueiro ‘‘In Your Mind’’ (77), é o primeiro em que canta apenas músicas inéditas (e suas). Não funciona, e o belo ‘‘The Bride Stripped Bare’’ (78) tenta voltar ao pique crooner, com versões reverentes de Al Green, Sam & Dave e, bingo, Velvet Underground.
Então o RM ressurge com ‘‘Manifesto’’ (79), o mais flácido de sua história. ‘‘Flesh + Blood’’ (80) reconquista algum brilho, mas menos à custa de inéditas semi-preciosas que do espírito Ferry de regravar Wilson Pickett e Byrds.
‘‘Avalon’’ (82), o derradeiro disco de estúdio do grupo, inaugura a vertente que garantiria a Ferry sobrevida nos yuppies anos 80, escorrendo mel por ‘‘More Than This’’, ‘‘Avalon’’ e ‘‘While My Heart Is Still Beating’’, deliciosas à distância, mas perigosas então.
Assim são os solos seguintes, ‘‘Boys and Girls’’ (85) e ‘‘Bête Noire’’ (87), inéditos na íntegra e impregnados de publicidade e cana-de-açúcar. O esgotamento não tardou, calando Ferry por seis anos até o injustiçado ‘‘Taxi’’ (93). Este, retomando os termos do início de sua carreira de cantor, oculta inspiração de alta voltagem, em mortíferas, amortecedoras versões de Elvis Presley, gospel e a canção de partida do conceito RM, ‘‘All Tomorrow’s Parties’’ (67, Velvet Underground). De volta aos inéditos, soou perdido em ‘‘Mamouna’’ (94) e, de volta ao retorno, regride mais ainda no CD de canções dos primeiros anos 20, recém-lançado. Não há fecho de ciclo, tudo parece um sufocante círculo vicioso. É que romantismo – que dirá o pós-moderno? – por vezes entontece o homem. Bryan Ferry talvez fosse o último dos pop-românticos.