O último herói solitário
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
Há vinte e um filmes, em quase trinta anos, que o veterano Clint Eastwood vem construindo uma das mais sólidas, interessantes e pessoais carreiras como diretor. Mesmo quando há tropeços, como no anterior À Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, o resultado fica bem acima da sofrível média hollywoodiana, de onde uma crônica equivocada retira talentos jovens a uma velocidade máxima.
Em True Crime, um presente de Natal que as locadoras estão oferecendo com um mês de antecedência, Eastwood é o jornalista Steve Everett, às voltas com uma reportagem sobre as últimas horas de vida de um condenado à morte. Este é o argumento bruto. A partir daí, o diretor retira e desenvolve uma finíssima peça de cinema de alta voltagem. Para começar, Clint subverte o sentido da fabulação clássica. Ele surge como lobo na pele de lobo, e mais adiante vamos vê-lo como cordeiro na pele de lobo. O repórter que encarna é um profissional cínico e compulsivo, ex-alcoólatra, brilhante mas decadente, marido infiel, pai omisso. Logo vai transformar sua pauta em investigação criminal. Para ele e seu bem mais caro, o faro para a notícia e para o espectador fica evidente desde logo que o condenado (Isaiah Washington: anotem o nome) é inocente. Logo, é ficar de olho no relógio, remar contra a maré das provas processuais, do conformismo e da intolerância e buscar o verdadeiro culpado.
Como um cruzado politicamente incorreto, que fuma a todo momento, vai para a cama com a mulher do chefe imediato, é refratário à autoridade e não consegue manter uma relação afetiva satisfatória com a mulher e a filha pequena o passeio no zôo é antológico Steve é o condutor das preocupações de Clint. Imprensa, religião, celebridades, culpabilidade, racismo, erro judiciário, pena de morte: nada do discurso social pretendido escapa ao crivo da câmera. E o diretor sabe ser up to date como poucos: o segredo parece estar na combinação harmoniosa de referências clássicas uma narrativa simples à moda de John Ford e pontos de vista contemporâneos, como por exemplo a ambiguidade dos personagens, sem exceção.
Mas o melhor de tudo é saber das afinidades entre o personagem e o próprio Clint, o que transforma Crime Verdadeiro num filme de mão dupla. Ao mesmo tempo em que atira a pedra, o diretor se coloca como vidraça. Aqui Eastwood se revela, se despe literal e figurativamente. Segundo sua biografia autorizada, assinada pelo crítico da revista Time, Richard Schickel, há parâmetros mais ou menos evidentes entre Steve e Clint, que não só também se confessa um pai pouco atento como ainda escalou a própria filha, Francesca Fisher-Eastwood, como a filha do personagem. Senso de humor e auto-referências parecem estar servindo como elixir da juventude na atual fase da carreira do último (anti) herói americano. Lançamento da Warner Home Vídeo. Duração: 127 minutos.





