Jimi Hendrix já havia provocado comoção vinte anos antes. Não foi o menor o baque naquela dia, particularmente na comunidade do blues, quando tevês e rádios divulgaram a queda do helicóptero que levava o guitarrista Stevie Ray Vaughan.
Stevie voltava de um show para 35 mil pessoas, em que brilhara no palco ao lado de Eric Clapton, Buddy Guy, Robert Cray e do irmão Jimmy Vaughan. O acidente interrompeu a trajetória do artista, mas reforçou a perenidade do mito, como comprova sua recente escalação para o Blues Hall of Fame na categoria de melhor Performance Individual.
Responsável por apresentar o blues a toda geração de guitarristas que o sucedeu, Stevie Ray Vaughan é considerado o ‘‘último herói da guitarra’’. Quando surgiu, tirou do blues o estigma de gênero enferrujado. Pirralhos branquelas como Johnny Lang e Kenny Wayne provavelmente estariam tocando em bandas de rock, não fosse a audição de álbuns como ‘‘Texas Floor’’, ‘‘Coundn’t Stand the Weather’’, ‘‘Soul to Soul’’ e especialmente ‘‘In Step’’, que brindou Ray com o Grammy de melhor disco de blues contemporâneo um ano antes de sua morte trágica.
A pegada veloz, estridente e metálica tornou-se uma escola imitada no mundo inteiro. Por ter personificado um estilo e deixado seguidores, é saudado como um dos poucos músicos brancos a merecer o título de mestre do blues. ‘‘Stevie teve o mesmo impacto no anos 80 que Eric Clapton teve nos 60’’ – afirmou certa vez o blueseiro britânico John Mayall.
‘‘Se ele tivesse tocado em Chicago nos anos 50, ele conseguiria bater a concorrência. O jeito com que ele tocava me assustava’’ – confessou Buddy Guy. ‘‘Eu diria que você pode sentir a alma dele em sua guitarra’’ – disse B.B.King. Mas a trajetória do músico foi errática, pulando de banda em banda até emplacar com o Double Trouble, nome inspirado em uma composição de Otis Rush.
Seus primeiros riffs foram disparados na adolescência, tocando às escondidas a guitarra do irmão Jimmie, que se consagraria no The Fabulous Thunderbirds. Aos 18 anos, conheceu Albert King, um de seus ídolos. Três anos e meio depois, o jovem guitarrista já dividia o palco da mitológica casa Antone’s com o mestre.
De posse de uma Fender 59, teve problemas com a primeira formação do Double Trouble protagonizando uma disputa de egos com a vocalista Lou Ann Barton. Posteriormente, já sem a cantora, foi conquistando platéias cada vez maiores ao lado do baixista Tommy Shannon, do baterista Chris Layton e mais tarde do tecladista Reese Wynans.
No ápice da popularidade, o grupo foi escalado para o Festival de Jazz de Montreaux, na Suiça. O show empolgou o músico pop David Bowie, que estava na platéia e acabou convidando o guitarrista para tocar em seu álbum ‘‘Let’s Dance’’ e abrir sua respectiva turnê promocional. Em 1983, veio o primeiro disco, ‘‘Texas Flood’’, ao qual se seguiram mais quatro títulos-solo.
Após sua morte, vários trabalhos póstumos apareceram no mercado. Um deles, a compilação ‘‘Blues at Sunrise’’, saiu há pouco no Brasil trazendo duas faixas inéditas (em uma delas, Stevie duela ao vivo com o bluesman Johnny Copeland). Paralelamente à fama, Steve Ray se entupia de cocaína. Certa vez, desmaiou durante uma apresentação revelando a gravidade de seu vício.
Passou um ano longe de palcos e badalações. Foi obrigado a se internar num centro de desintoxicação, enfrentando também a dependência do álcool. Em 1988, sóbrio e recuperado, gravou o álbum ‘‘In Step’’, tido como sua obra-prima. Em 1990 lançou com o irmão o disco ‘‘Family Style’’. No dia 27 de agosto, o helicóptero que o levava chocou-se com uma montanha em Alpine Valley (Wisconsin) desplugando para sempre sua guitarra.

mockup