São Paulo, 23 (AE) - Wayne Wang nasceu em Hong Kong, em 1949, mas ficou famoso como diretor de cinema nos Estados Unidos. "O Clube da Felicidade e da Sorte fez sucesso de público, mas o filme que consagrou Wang perante a crítica foi "Cortina de Fumaça", que recebeu até prêmio em Berlim. Wang gosta de dizer que traz o cinema até no nome - Wayne foi uma homenagem de seu pai ao lendário John Wayne.
Ele fez "Cortina de Fumaça" com roteiro de Paul Auster. O próprio Auster terminou dirigindo o segundo filme da série, quando Wang ficou impossibilitado - "Sem Fôlego. No fim de 1996, Wang voltou às origens, a Hong Kong, para rodar "O Último Entardecer. O filme estréia amanhã (24). É uma ficção dramática tecida em torno da entrega de Hong Kong à China.
Perde, em comparação com o brilhante "Cortina de Fumaça", mas está longe de ser irrelevante. Possui qualidades. Elas passam necessariamente pela dupla de protagonistas, a deusa Gong Li e Jeremy Irons. O diretor começou a rodagem pelo começo do filme - as festividades do réveillon de 1997, o último de Hong Kong sob o domínio britânico. Rodou rapidamente, alternando técnicas de cinema e vídeo. Em três meses o filme já estava sendo concluído e montado. Faltavam as cenas de 30 de junho de 1997, quando houve a troca de bandeiras e Hong Kong foi definitivamente reincorporada à China. Em setembro daquele ano, "O Último Entardecer" foi exibido no Festival de Veneza. Era um dos filmes mais aguardados da competição. Os críticos decepcionaram-se.
Wang foi o primeiro a reconhecer, numa entrevista, no próprio Lido, que o filme tinha graves problemas estruturais. Mas o considerou, de longe, seu filme mais importante. Quando passou em Veneza, "O Último Entardecer" tinha 116 minutos de projeção. Wang confessou que estava sendo pressionado pelos produtores para reduzir a duração. Terminou cedendo. A versão que chega aos cinemas brasileiros tem 95 minutos, 21 a menos do que a exibida na mostra veneziana. O filme ficou melhor, mais denso, mais conciso. Antes, era mais dispersivo. A história original é do diretor com Jean-Claude Carrire e Paul Theroux. O roteiro, de Carrire e Larry Gross.
Protesto - Começa num clube, numa festa de réveillon ensanguentada pelo suicídio de um morador de Hong Kong em protesto contra a reintegração à China. A cena é ótima. Embora seja o ponto de partida da ficção, tem uma base quase de documentário. O personagem de Irons, um jornalista britânico, define Hong Kong como "uma prostituta honesta". Diz que haverá uma troca de cafetão. Na história, Irons, que se chama John, é apaixonado por Gong Li. Ela é Vivian, ligada a outro homem. John descobre que está morrendo de câncer.
Irons também falou com a reportagem no Lido. Na época, todo o mundo estava mais interessado em comentar o escândalo que a versão de Adrian Lyne para "Lolita" estava provocando nos Estados Unidos. Irons chegou a irritar-se com o que chamou de imediatismo da mídia. Queria falar sobre "O Último Entardecer". Esse homem que está morrendo é, até de maneira um tanto óbvia, o imperialismo britânico que chega ao fim em Hong Kong. Vivian, que é (ou foi) prostituta, é a própria Hong Kong.
Figuras terminais - Pouco antes de "O Último Entardecer", Irons havia feito Beleza Roubada". No filme de Bernardo Bertolucci, seu personagem também morre de câncer. Vive o fim de uma época - aquela juventude que havia tentado mudar o mundo em maio de 1968. Irons declarou-se solidário com esses personagens. "John me oferece condições para uma grande criação; se tal não consegui, a culpa é minha, não de Wayne nem de Jean-Claude, que me ofereceram um belíssimo personagem." Estava feliz por haver contracenado com Gong Li. "É uma verdadeira estrela e uma atriz que vai fundo em suas criações", disse.
John vive entre duas culturas. Permanece um estrangeiro em Hong Kong. Ele encontra nas ruas uma garota, Jean, interpretada por Maggie Cheung. Vivian oferece uma face de Hong Kong. Termina encerrando o sentido do filme, quando parte para um novo começo. A identificação de Jean com a cidade é mais soturna. Quando John quer extrair dela a história de sua vida, ela inicia contando mentiras. O véu da fantasia cai quando ela lhe conta a história do seu amor por um inglês. O reencontro dos dois amantes é doloroso. Deixa uma sensação de amargo desencontro.
Para Wang, o motivo que o levou a fazer o filme é o mais evidente possível. Ele também vive entre duas culturas - a origem em Hong Kong e o triunfo nos Estados Unidos. Filma a morte de John e a derrocada do imperialismo britânico com uma discreta emoção que não aproxima o filme da tristeza. Há cenas de rua que transformam "O Último Entardecer" numa espécie de reportagem sobre Hong Kong. Para Wayne, a cidade vive em perpétua mutação. Seu filme tem valor testemunhal. E a idéia do diretor sobre o assunto é expressa por aquele coração que insiste em bater no desfecho, mesmo depois da morte. Wang tem razão. "O Último Entardecer pode ter problemas e, mesmo na versão compacta, pode estar longe de ser perfeito, mas é seu filme mais importante. Um documento histórico que vale conhecer. Serviço - O Último Entardecer. Drama. Direção de Wayne Wang. Com Jeremy Irons, Gong Li. Duração: 95 minutos. 14 anos. Distribuição: Playarte Pictures

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