Capa de Moreira da Silva - O Último dos Malandros

Antonio Moreira da Silva poderia ter sido apenas mais um sambista que animava as noites do Estácio carioca não fosse um modesto episódio ocorrido no Cine-Teatro Méier em abril de 36. Naquela noite, enquanto interpretava ‘‘Jogo Proibido’’, de Tancredo Silva, Moreira interrompeu o acompanhamento musical com um gesto manual.
Silêncio. Arrematou: ‘‘Eu meto ácido no nariz do otário. O homem cai e diz: ‘Moreira, eu vou morrer.’’ Nascia, ali, o samba-de-breque. ‘‘Moreira da Silva, o Último dos Malandros’’, que está sendo lançado pela Record, refaz a trajetória do sambista no contexto da malandragem carioca dos anos 30.
O autor, o jornalista baiano Alexandre Augusto Gonçalves, 23 anos, levou dois anos para recolher o material para a biografia, que tem prefácio do também jornalista Sérgio Cabral. Traz ainda a discografia completa do sambista, com 26 discos (incluindo parcerias) e um pequeno glossário da malandragem, que reúne gírias e expressões relativas à prostituição, boemia e temas correlatos.
O livro defende que Moreira foi o único militante de sua própria criação, o samba-de-breque - estilo que alterna gírias e frases com interrupção brusca da música. Para o autor, os sucessores e aprendizes em potencial foram arrebatados pelo novo cenário musical carioca dos anos 60. Cenário este das canções engajadas, do tropicalismo e da bossa nova.
Obra prolífica A radiografia de sua origem simples e pobre toma boa parte do livro, que descreve o primeiro emprego de Moreira aos nove anos, e histórias de seu período como taxista e motorista noturno. Moreira teve, também, mulher e filho mortos por complicações do parto.
O tom coloquial marca a narrativa, como que tentando tratar de forma corriqueira os fatos da vida de um letrista do cotidiano. A dose só é ultrapassada quando esse tom é usado para tratar de temas dramáticos, como a passagem acima citada, que tem como complemento o comentário: ‘‘O Mulatinho ficou triste, mas um pouco aliviado. De alguma forma, tirou uma grande responsabilidade das costas.’’
Antonio Moreira da Silva nasceu no Rio em 1902 e teve o pai morto aos 8 anos. Sua obra prolífica espalha-se por várias gravadoras que à época acolhiam a popularização do samba. Trabalhou na rádio Mayrink Veiga e em 39 participou do filme ‘‘A Varanda dos Rouxinóis’’, de Leitão de Barros.
‘‘Moreira da Silva, o Último dos Malandros’’ dá um panorama claro de como o samba se popularizou nos anos 20/30, por meio das inúmeras rádios que surgiram, da proliferação dos long-plays a partir dos anos 50 e o nascimento do Carnaval de rua, que remonta ao bloco Deixa Falar, do mesmo Estácio de Moreira.
q Moreira da Silva, o Último dos Malandros - de Alexandre Augusto, 312 páginas. Editora Record. Preço: R$ 30,00

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