O uivo do lobo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de julho de 1998
André Bernardo Cult Press 
Quando lançou o romance À Mão Esquerda, que ganhou o Prêmio Jabuti do ano passado, o escritor e jornalista Fausto Wolff foi comparado pelo amigo e cartunista Jaguar a um dos mestres da geração beatnik: o americano Charles Bukowski. Afinal, os dois autores se assemelham tanto pelo tom melancólico em suas narrativas quanto pela resistência à bebida. A única diferença é que escrevo melhor que ele!, brinca o escritor. Aos 58 anos, esse gaúcho de Santo Ângelo demonstra fôlego de adolescente e volta ao mercado editorial com seu primeiro livro de contos, O Homem e Seu Algoz.
Publicado pela Bertrand Brasil, O Homem e Seu Algoz reúne uma vasta galeria de personagens que, à margem da sociedade, enfrentam um inimigo quase sempre imbatível: a própria sociedade. Sempre vulneráveis à manipulação imposta pelo sistema, os personagens de Fausto Wolff vivem momentos cruciais de suas existências ao descobrir que são incapazes de ser felizes. É o caso do vagabundo, que protagoniza o primeiro dos 15 contos do livro. Dono de um passado com casa, comida e roupa lavada, o vagabundo é incapaz de compreender como e quando tudo começou a dar errado na vida. A vida, às vezes, prepara surpresas para quem pensa que o mais importante é ter grana e fazer sucesso!, adverte o escritor.
Na opinião do escritor, porém, ninguém está livre de algozes. Para ele, algoz é tudo aquilo que impede o homem de se realizar. Ex-editor e correspondente em Roma do semanário Pasquim, Fausto está afastado das redações desde 1994, quando assinou uma coluna política no extinto jornal carioca Última Hora. O escritor adquire um tom soturno ao falar que ele próprio possui o seu carrasco impiedoso. Sou um jornalista político que vive do que escreve. Você quer pior algoz do que este?, indaga.
Descontente com a atual qualidade do jornalismo brasileiro, que considera muito acomodado e pouco combativo, Fausto Wolff lembra com saudade dos tempos do Pasquim. Ele afirma que a amizade entre os remanescentes do controvertido semanário permanece até hoje. Só fico triste porque percebo que não houve uma geração capaz de pegar o bastão, lamenta.
Apesar da boa repercussão de À Mão Esquerda, Fausto Wolff não se arrisca a fazer qualquer previsão sobre O Homem e Seu Algoz. Ele ressalta que não escreve um livro com a intenção de ser aplaudido pela crítica ou transformado em best seller. À Mão Esquerda vendeu só 6 mil exemplares. Se eu quisesse ganhar dinheiro, escreveria sobre auto-ajuda, alfineta. Para ele, o grande mérito do escritor é a capacidade de suscitar reflexões no leitor. Pensar dói menos que tomar uma injeção, acredita.
Mesmo às voltas com o desemprego, Fausto Wolff consegue a proeza de ter um padrão de vida acima da média dos escritores brasileiros. Com o dinheiro que recebe de traduções e direitos autorais, o escritor leva uma vida confortável num apartamento de frente para a Praia de Copacabana, na Zona Sul do Rio. Faço parte daquela pequena parcela de escritores que vivem de literatura no Brasil!, gaba-se.
O escritor diverte-se ao lembrar que tanto ele quanto sua atual namorada, a psicanalista Mônica Tolipan, escolheram justamente as duas profissões que a classe média logo risca do orçamento em tempos de crise. Mesmo assim, o escritor já dispõe do adiantamento necessário para escrever seu próximo livro, Seu Nome, também de contos. Tenho a sorte de a Bertrand Brasil me pagar sempre uma edição adiantada, esclarece.
Enquanto a nova fornada de histórias não fica pronta, Fausto se dedica a revisar os originais do seu romance de estréia. Publicado em 1967, O Acrobata Pede Desculpas e Cai ganha, em breve, uma nova edição. Às vésperas de reeditá-lo pela quarta vez em 30 anos, Fausto ressalta que não cogita a possibilidade de atualizar o romance, mesmo porque para ele a trama continua atual. Para falar a verdade, só tem uma frase ou outra que eu gostaria de diminuir, ressalva.Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasFausto Wolff: Só fico triste porque percebo
que não houve uma geração capaz de pegar o bastãoFausto Wolff publica seu primeiro
livro de contos, O Homem e seu Algoz


