Quando lançou o romance ‘‘À Mão Esquerda’’, que ganhou o Prêmio Jabuti do ano passado, o escritor e jornalista Fausto Wolff foi comparado pelo amigo e cartunista Jaguar a um dos mestres da geração beatnik: o americano Charles Bukowski. Afinal, os dois autores se assemelham tanto pelo tom melancólico em suas narrativas quanto pela resistência à bebida. ‘‘A única diferença é que escrevo melhor que ele!’’, brinca o escritor. Aos 58 anos, esse gaúcho de Santo Ângelo demonstra fôlego de adolescente e volta ao mercado editorial com seu primeiro livro de contos, ‘‘O Homem e Seu Algoz’’.
Publicado pela Bertrand Brasil, ‘‘O Homem e Seu Algoz’’ reúne uma vasta galeria de personagens que, à margem da sociedade, enfrentam um inimigo quase sempre imbatível: a própria sociedade. Sempre vulneráveis à manipulação imposta pelo sistema, os personagens de Fausto Wolff vivem momentos cruciais de suas existências ao descobrir que são incapazes de ser felizes. É o caso do vagabundo, que protagoniza o primeiro dos 15 contos do livro. Dono de um passado com casa, comida e roupa lavada, o vagabundo é incapaz de compreender como e quando tudo começou a dar errado na vida. ‘‘A vida, às vezes, prepara surpresas para quem pensa que o mais importante é ter grana e fazer sucesso!’’, adverte o escritor.
Na opinião do escritor, porém, ninguém está livre de algozes. Para ele, algoz é tudo aquilo que impede o homem de se realizar. Ex-editor e correspondente em Roma do semanário ‘‘Pasquim’’, Fausto está afastado das redações desde 1994, quando assinou uma coluna política no extinto jornal carioca ‘‘Última Hora’’. O escritor adquire um tom soturno ao falar que ele próprio possui o seu carrasco impiedoso. ‘‘Sou um jornalista político que vive do que escreve. Você quer pior algoz do que este?’’, indaga.
Descontente com a atual qualidade do jornalismo brasileiro, que considera muito acomodado e pouco combativo, Fausto Wolff lembra com saudade dos tempos do ‘‘Pasquim’’. Ele afirma que a amizade entre os remanescentes do controvertido semanário permanece até hoje. ‘‘Só fico triste porque percebo que não houve uma geração capaz de pegar o bastão’’, lamenta.
Apesar da boa repercussão de ‘‘À Mão Esquerda’’, Fausto Wolff não se arrisca a fazer qualquer previsão sobre ‘‘O Homem e Seu Algoz’’. Ele ressalta que não escreve um livro com a intenção de ser aplaudido pela crítica ou transformado em best seller. ‘‘À Mão Esquerda vendeu só 6 mil exemplares. Se eu quisesse ganhar dinheiro, escreveria sobre auto-ajuda’’, alfineta. Para ele, o grande mérito do escritor é a capacidade de suscitar reflexões no leitor. ‘‘Pensar dói menos que tomar uma injeção’’, acredita.
Mesmo às voltas com o desemprego, Fausto Wolff consegue a proeza de ter um padrão de vida acima da média dos escritores brasileiros. Com o dinheiro que recebe de traduções e direitos autorais, o escritor leva uma vida confortável num apartamento de frente para a Praia de Copacabana, na Zona Sul do Rio. ‘‘Faço parte daquela pequena parcela de escritores que vivem de literatura no Brasil!’’, gaba-se.
O escritor diverte-se ao lembrar que tanto ele quanto sua atual namorada, a psicanalista Mônica Tolipan, escolheram justamente as duas profissões que a classe média logo risca do orçamento em tempos de crise. Mesmo assim, o escritor já dispõe do adiantamento necessário para escrever seu próximo livro, ‘‘Seu Nome’’, também de contos. ‘‘Tenho a sorte de a Bertrand Brasil me pagar sempre uma edição adiantada’’, esclarece.
Enquanto a nova fornada de histórias não fica pronta, Fausto se dedica a revisar os originais do seu romance de estréia. Publicado em 1967, ‘‘O Acrobata Pede Desculpas e Cai’’ ganha, em breve, uma nova edição. Às vésperas de reeditá-lo pela quarta vez em 30 anos, Fausto ressalta que não cogita a possibilidade de atualizar o romance, mesmo porque para ele a trama continua atual. ‘‘Para falar a verdade, só tem uma frase ou outra que eu gostaria de diminuir’’, ressalva.Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasFausto Wolff: ‘‘Só fico triste porque percebo
que não houve uma geração capaz de pegar o bastão’’Fausto Wolff publica seu primeiro
livro de contos, ‘‘O Homem e seu Algoz’’

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