O mocinho costuma ser figura central dentro de qualquer história. O arquétipo é conhecido pelos valores inabaláveis e atos heroicos, mas já teve mais prestígio, principalmente, na teledramaturgia brasileira. Papel importante da grande maioria das tramas entre os anos 1960 e 1980 – e base das carreiras de galãs como Tarcísio Meira e Francisco Cuoco –, a "perfeição" do herói começou a perder força pelas mãos de autores como Dias Gomes, Janete Clair e Lauro César Muniz, hábeis na construção de tipos que fugiam do maniqueísmo. A referência reverbera até hoje. Na Globo, por exemplo, às sete da noite, com "Geração Brasil", Jonas, de Murilo Benício, lida com suas falhas e desvios de caráter de forma naturalista. De forma um pouco mais exagerada, está também o errante Artur, protagonista com sede de vingança de "Vitória", interpretado por Bruno Ferrari. "Se a telenovela se propõe a ser um espelho da realidade, ela precisa incorporar certas posturas. Ninguém é feliz ou triste o tempo todo. Assim como ninguém é bonzinho demais. A pessoa pode até ser legal, mas é capaz de cometer atrocidades em determinados momentos", opina Cristianne Fridman, autora da novela da Record.
Quando não tem suas contradições morais evidenciadas, o mocinho acaba caindo na ingenuidade. Na realista "Em Família", Cadu e Virgílio, personagens de Reynaldo Gianechinni e Humberto Martins, de tão bonzinhos, passam longe do brio e da coragem dos mocinhos e funcionam como o "traído" e o "bobão" da trama de Manoel Carlos. "A importância de não perder os laços familiares faz Virgílio aceitar tudo, de forma quase resignada", conceitua Humberto.
A decadência do herói parece ser uma obsessão para grande maioria dos autores atuais. Aguinaldo Silva é um defensor deste tipo de personagem. Em "Duas Caras", de 2007, concebeu a história do mocinho-vilão Ferraço, papel de Dalton Vigh, de forma irretocável. De um golpista frio e calculista ao pai que se humaniza por causa do filho que custou a conhecer. "A criança alterou a rota do personagem. O diferencial aí está no modo como Aguinaldo conduziu a história: Ferraço não mudou sua essência da noite para o dia, ele incorporou novos traços", relembra Vigh. Em 2014, Aguinaldo volta a apostar em um personagem dúbio e complexo em "Império", trama que estreia no dia 21 de julho. Para o autor, fica difícil fazer uma história verossímil onde quem comanda a trama é alguém totalmente do bem. "A realidade grita nos jornais. O telespectador, simplesmente, custa a acreditar nos bonzinhos", analisa o autor, que entregou seu próximo protagonista, José Alfredo, a Alexandre Nero.
Do ponto de vista dos intérpretes, as possibilidades e nuances de um anti-herói deixam o trabalho muito mais prazeroso. Mas é preciso ter equilíbrio para não pesar a mão nas vilanias e bondades que envolvem o papel. "É uma corda bamba. José Alfredo é doce, mas pode ser grosseiro e estúpido. Ele já sofreu muito na vida e deixou de ser bobo. O preço disso é muito alto", adianta Nero. Na pele do misterioso Jonas Marra, Murilo Benício assume que não fazer um mocinho convencional é sempre mais instigante, ainda mais para quem já viveu tipos irrepreensíveis como o Bráulio de "Vira Lata", o Antônio de "Meu Bem Querer" e o Tufão de "Avenida Brasil". "Sei onde posso chegar como mocinho. Mas não sei o que um tipo mais ambíguo me reserva no resultado final de cada trabalho. São personagens que dão liberdade ao autor e isso também reflete no caminho pelo qual os atores podem levar a cena", justifica Benício.
Alguns poucos novelistas continuam a insistir em protagonistas mais tradicionais. Walther Negrão, por exemplo, acredita que o confronto entre Bem e Mal é imbatível na construção dramatúrgica de uma história. Sua última novela, "Flor do Caribe", foi marcada pela nítida divisão de arquétipos na pele do mocinho corajoso e apaixonado Cassiano, de Henri Castelli, e do invejoso Alberto, de Igor Rickli. "Para mim, novela é fantasia, sonho e final feliz. É uma fuga ao telejornal, que só tem notícias trágicas. Não vejo vantagens em confundir a torcida do público", admite o autor. Elizabeth Jhin, responsável por "Amor Eterno Amor" e "Escrito nas Estrelas", também reforça o pequeno coro que defende que o herói "à moda antiga" ainda tem valor dentro da trama. "Minhas novelas sempre falam de esperança e recomeços. Ter uma figura masculina forte e do bem é importante nesse contexto, carregando a história", explica.

Quase do bem


Os valores andam tão invertidos nas novelas atuais que até os mocinhos que poderiam ser heróis perdem a credibilidade no meio do caminho. Em "Amor à Vida", de Walcyr Carrasco, ficou difícil acreditar em Bruno, protagonista de Malvino Salvador, depois de ele ficar com uma criança que achou no lixo e esconder a informação durante anos. "Ele era bom na essência, não quis fazer mal a ninguém. A vida tinha saído do eixo e ele estava desesperado", defende o ator.
Em "Sete Pecados", outra trama assinada por Walcyr, Dante, de Reynaldo Gianecchini, focou em sua ambição: deixou a mulher e os filhos para ficar ao lado da vilã, Beatriz, de Priscila Fantin. Um erro que condenou o personagem, sem grande apelo popular e que passou a novela atrás de uma solução coerente para sua súbita redenção e arrependimento. O autor bem que tentou. "Nessa novela, eu quis falar sobre a transformação das pessoas por meio dos pecados que elas cometem. O público queria ver o mocinho na tela e não poupou o Dante", acredita Walcyr.

mockup