"O Tronco" entusiasma platéia de Brasília
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quinta-feira, 25 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio, enviado especial 
Brasília, 25 (AE) - Não se pode dizer que a primeira noite de competição do 32.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro tenha sido um fracasso. Pelo contrário, tanto os dois longas da noite, "O Tronco" e "Por trás do Pano", como os curtas, "Copacabana" e "Sob a Sombra dos Anjos", foram devidamente aplaudidos. A sessão no Cine Brasília começou como manda a tradição: com sala superlotada, gente se acotovelando no hall de entrada, gente sentada nos corredores, nas escadarias. Um mar de gente. O festival é uma grande festa. Mas uma festa que não contempla nenhum padrão modesto de segurança ou conforto.
Não é que os organizadores do evento não consigam controlar o número de espectadores que procuram o Cine Brasília - a superlotação, o caos, o barulho e o frenesi passaram a ser dados culturais tidos como positivos em si e que, portanto, devem ser cultivados.
Muitas pessoas da cidade trabalharam em "O Tronco", épico que o cineasta João Batista de Andrade adaptou do romance homônimo de Bernardo Élis. Isso explica a verdadeira ovação que a equipe teve quando subiu ao palco, em especial o ator Henrique Rovira, um dos mais atuantes da cidade, digno de uma recepção de astro pop. Se a platéia delirou na abertura, continuou participando ao longo da projeção. Mesmo quando dava mostras de não estar entendendo lá muito bem o que se passava na tela, principalmente quando ria em cenas que o bom senso mandaria classificar como trágicas.
Claro, esse é um dos problemas do correto filme de João Batista: certas atuações improváveis, principalmente por parte do elenco secundário, que tiram impacto de algumas sequências e podem, eventualmente, levar ao chamado humorismo involuntário. Nada disso justifica a maneira superficial como esse bom filme político foi visto. "O Tronco" fala da luta de coronéis do norte de Goiás contra o governo do Estado, no fim da década de 10. Alguns temas centrais do País, como o mandonismo, o maquiavelismo político e a violência no jogo pelo poder estão lá contemplados. Deveriam ter sido entendidos com mais clareza. Em especial por uma platéia tida como politizada e que vaiou intensamente os créditos do governo do Distrito Federal apresentados no início da noitada.
Como era de se esperar, a segunda parte da sessão esvaziou-se. Se durante a exibição de "O Tronco" havia gente espirrando pelo ladrão, na hora de "Por trás do Pano" imperou o conforto. Era possível até esticar os pés e colocá-los em cima da poltrona da frente. Isso porque quase metade da casa foi embora depois que subiram os créditos do primeiro longa. Normal na véspera de um dia útil, numa cidade em que o transporte público praticamente inexiste e tem um dos serviços de táxi mais caros do planeta. Quando se faz sessão dupla em Brasília, o segundo filme sempre sai prejudicado.
Dado esse desconto, os remanescentes até assistiram bem a "Por Trás do Pano", história dos bastidores de uma montagem teatral. O filme, dirigido por Luiz Villaça, é simpático, um tanto ralo, mas consegue empatia com platéias generosas, como é o caso em Brasília. O fato de ter sido aplaudido no fim, e algumas vezes em cena aberta, não chega a ser surpresa.
Há uma certa inconstância na história de um diretor de teatro, Luiz Melo, que busca uma partner para a montagem de Macbeth e a encontra na figura de Denise Fraga. A idéia é interessante, com a novata cheia de gás colocando em xeque e finalmente estimulando o veterano já um pouco cansado de guerra. O intercâmbio de idéias e experiências acaba gerando crises conjugais para os dois, casados respectivamente com uma arquiteta (Marisa Orth) e um pintor (Pedro Cardoso). O elenco global facilita o diálogo com a platéia. Mas a intenção de leveza escorrega, com frequência, na ligeireza. Um filme bom para se ver uma vez; difícil de rever.
Atrações de amanhã (26) - "Gêmeas", de Andrucha Waddington, e "São Jerônimo", de Julio Bressane, dão seguimento à mostra competitiva de longas-metragens. Os curtas da noite são "Cão Guia", de Gustavo Acioli, e "Deus É Pai", de Allan Sieber.
Integrante da Conspiração Filmes, Andrucha explora, em seu primeiro longa, o tema rodriguiano das duas irmãs que se apaixonam pelo mesmo homem. Como no amor e na guerra vale tudo, não hesitam em ir até as últimas consequências. No ano passado, a Conspiração apresentou, aqui mesmo em Brasília, "Traição", composto de três episódios baseados em textos do dramaturgo Nélson Rodrigues.
"Gêmeas" fazia parte do mesmo projeto, mas acabou ganhando autonomia e virou um longa-metragem à parte. A turma da Conspiração é jovem. Em "Traição", saiu-se bem reavaliando o Nélson Rodrigues da década de 50 pela luz dos anos 90. A expectativa é saber se Andrucha consegue manter o mesmo nível de trabalho dos colegas.
"São Jerônimo", que já estreou em várias capitais brasileiras, é uma interpretação pessoal da vida do santo intelectual que traduziu para o latim as escrituras sagradas no início da era cristã. Um filme de grande beleza visual, denso, difícil, exigente, como em geral são os trabalhos de Bressane. Vai, também, pagar o pecado de ser a última atração da noite.


